As adversidades de ser uma empreendedora autônoma

As adversidades de ser uma empreendedora autônoma

Incomodada com a quantidade de lixo têxtil da moda e motivada por um sonho (em todos os sentidos) foi que Laura Amaral criou a Campana Handmade Bag. Com bolsas feitas à mão e matéria prima livre de crueldade animal, a gaúcha se destaca em um mercado em que é preciso resistência para persistir e promove o consumo consciente. Na conversa que teve com a Nayara Anhana, Laura revela os desafios do empreendedorismo jovem, de moda e feminino e conta um pouco sobre como superou e se fortaleceu com as experiências que viveu simplesmente por ser mulher.

Laura Amaral com uma de suas criações da Campana

Como surgiu a ideia da Campana Handmade Bag?

Tudo começou quando eu era estagiária de moda e fui apresentada a uma enorme quantidade de lixo têxtil. Isso impactou a minha vida, me fez mudar em todos os sentidos, então, um dia a tive um sonho em que o nome Campana foi entregue a mim. Até eu ter coragem de largar meu emprego  de vendedora e viver do meu trabalho foram 18 meses.

Você cria todos os produtos de forma autônoma, como tem sido se manter em um mercado que não valoriza o consumo consciente? Acha que esse processo está mudando?

É resistência! Grandes empresas lucram com a insegurança das pessoas para vender. Mas acredito que isso está mudando, pois o ato de consumir está sendo repensado, ter menos e melhor é uma forma de vida, quando você está feliz tudo te completa e o consumo se torna mais consciente.

Como é empreender sendo mulher numa estrutura onde há majoritariamente homens no mercado?

Muito desafiador, o fato de ser mulher e jovem, confiança e credibilidade tem que ser fortalecida, pois infelizmente já tive que aguentar piadinhas e falta de respeito por ser mulher. No meu ramo de trabalho tenho que ir em muitos depósitos e locais onde os homens estão em maioria, tive que aprender a vestir uma armadura, ser séria nas minhas palavras, sem sorrir ou ser gentil, principalmente com os mais velhos. Isso já me incomodou mais, depois de sentir alguns assédios aprendi que infelizmente não dá para ficar de bobeira e ser legal.

Tudo feito à mão e com matéria prima sem origem animal

Houve algum momento de dificuldade que passou sendo uma mulher nesse meio?

Ligaram avisando que tinha um lote de retalhos para mim e que eu tinha que buscar imediatamente. Peguei um metrô até Novo Hamburgo, cheguei lá e resolvi pegar um Uber até o local em que eu iria, pois de ônibus levaria mais de 25 minutos, como estava com pressa e o trajeto daria 5 minutos, chamei o carro.

Entrei no carro e o motorista não falou nada, conferi placas e tudo mais, tudo ok. Ao começar a viagem eu notei que ele pegou um caminho diferente, mas até aí tudo bem (10 minutos e nada de chegar no destino). Comecei a questioná-lo e ele não falava nada. 20 minutos depois e eu comecei a ficar nervosa, me dei conta de que estava em uma rua de terra com poucas casas e entrei em pânico! Aquele homem não respondia as minhas perguntas, então nervosa demais, liguei para o local onde eu iria buscar os retalhos e uma mulher atendeu, ufa!

EU: – Oi dona Ana, (nome inventado naquele momento de pânico), aqui é a Laura, estou atrasada para nossa reunião, me confirma o endereço.
MULHER: – Oi, quem fala mesmo? Laura, qual Laura?…Moça você precisa de ajuda?
EU: – SIM! Estou no Uber e o motorista se perdeu (estava com medo), estou em uma rua de terra, acho que fora da cidade.
MULHER: – Finge que desliga, fica comigo na linha que eu vou chamar a policia.

Fingi que desliguei o telefone e falei para o motorista: se você não me deixar agora no local que eu destinei a viagem, vou chamar a polícia. O carro parou e eu saí tremendo em uma esquina perto do local desejado. 45 minutos de pânico, a mulher que me atendeu na linha era funcionária do local e me deu força. Nesse dia eu dei graças por ela ter percebido pela minha voz que eu estava precisando de ajuda. Relatei o caso para o UBER, era a segunda corrida do motorista e nunca mais soube dele. Tudo que se passa na nossa cabeça é que vamos ser abusadas. Depois desse dia aprendi a vestir uma armadura e ter atenção redobrada em buscas de material.

Como você enxerga a moda? Ela pode ser revolucionária e usada como ferramenta política para as mulheres?

Acredito que é uma ferramenta revolucionária sim, vestir é expressão do ser. A moda já foi muito fútil e usada de forma banal, mas vestir é um ato revolucionário, a maior forma de mostrar no que você acredita, quem você é e o que representa.

Como você vê esse movimento de slow fashion e cruelty free que está emergindo?

Uma grande prova de valores, quem faz e consome produtos slow e cruelty está fazendo a diferença e resgatando valores esquecidos pelas fast fashions. O manual, artesanal, a energia e alma de um produto foi esquecido, mas tudo que é feito a mão tem poder e isso está sendo resgatado pelo amor e visão que precisamos respeitar o humano, o animal e o meio ambiente.

Se você pudesse dar um conselho às mulheres que estão lendo essa entrevista, qual seria ele?

Sigam seu sonhos, sigam sua intuição, sejam resistência, luta mulher!

Resultado do trabalho artesanal e que surgiu por conta de um sonho

Para conhecer melhor o trabalho da Laura Amaral e suas bolsas handmade:
Instagram @use.campana
Facebook @usecampana
Site www.usecampana.com

 

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