Assédio no carnaval: como reagir e por que ele existe

Assédio no carnaval: como reagir e por que ele existe

por Fran Bittencourt
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05/02/2019
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Logo está chegando aquela época do ano de muita festa, música, calor e axé: isso mesmo, o carnaval! Mas tem muita gente que usa essa data festiva pra justificar assédio e atitudes machistas. Vamos conversar mais sobre isso e entender porque esses abusos acontecem? Como podemos nos divertir e nos proteger em casos de assédio no carnaval?

82% das mulheres já foram assediadas nesta época do ano, aponta enquete feita pelo Catraca Livre

É comum ouvirmos e lermos relatos na época do Carnaval de mulheres que sofreram algum tipo de abuso: desde beijos “roubados” até casos de violência sexual.

Quando entrevistados, homens justificam suas ações dizendo que “carnaval não é lugar de mulher que se dá ao respeito” – uma pesquisa divulgada em 2016 pelo instituto Data Popular sinaliza que para 49% dos homens Carnaval não é lugar de mulher “direita”. Além disso, 61% deles acredita que mulher solteira que sai para a folia “não pode reclamar de ser cantada”.

O site Catraca Livre fez uma HQ baseada em uma relato de uma leitora sobre o assédio que sofreu no Carnaval de Olinda, em 2007:

Ao todo, foram 491 relatos de mulheres (82,8%), de um total de 593 participantes, que afirmam já ter sofrido assédio sexual no Carnaval, de acordo com levantamento on-line feito pelo Catraca Livre entre os dias 9 de janeiro e 3 de fevereiro de 2017.

A pesquisa foi realizada com leitoras de todo o Brasil. Você pode conferir mais relatos (e a HQ completa) aqui. Esses números são alarmantes e são resultados da cultura do assédio presente em nossa sociedade.

Essa cultura encontra no carnaval uma falsa permissão social expressa na frase “no carnaval tudo pode”. Por sua vez, essa frase é usada como justificativa para os atos de assédio e machismo.

Isso me lembra o filme “The Purge”: nele, todos os crimes são proibidos durante 364 dias ao ano, porém em apenas 1 dia tudo é permitido e não é julgado criminalmente. Nessas 24h, então, a população fica “desprotegida”, e todos ganham uma “permissão” para fazer o que quiserem.

Parece similar a como funciona o carnaval na prática, não é? Quatro dias em que a cultura do assédio é liberada. Não que esse assédio não aconteça nos outros dias do ano – infelizmente acontece, mas nesse período percebe-se uma permissão social para cometer machismo e abuso de forma desenfreada.

E como essa cultura do assédio começou?

Para Friedrich Engels, a violência de gênero é resultado de uma das maiores derrotas históricas do sexo feminino. No caso, quando as mulheres são retiradas da esfera trabalhista para serem cuidadoras do lar e reprodutoras dos filhos dos homens que detinham os meios de produção.

Durante muito tempo, às mulheres eram reservadas as tarefas de casa e cuidado dos filhos, enquanto os homens (chefes do lar) passavam o dia fora trabalhando. Essa diferenciação de atribuições com base no gênero é antiga e priva as mulheres de terem experiências de emancipação financeira. Por sua vez, estimula-se uma dependência feminina em relação aos homens.

Essa diferenciação de direitos entre homens e mulheres ganhou aporte da filosofia, da Igreja Católica e da própria sociedade patriarcal, que legitimavam a superioridade masculina. Por consequência, a mulher se torna subalterna ao homem – financeiramente e emocionalmente. Dessa maneira, as mulheres eram incentivadas a viver com base em um estereótipo familiar.

Há relatos de mulheres que eram vendidas por seus pais para homens em caráter de matrimônio forçado, o que nos leva a entender que não há romantismo na formação da instituição familiar: antes há interesses sociais e financeiros utilizados como critério de escolha.

Com a criação da propriedade privada dos meios de produção, a violência sexual contra as mulheres ganha tons de romance, tornando-a naturalizada. A mulher é vista como objeto para satisfazer e servir à vontade masculina.

Talvez você já tenha visto essa foto em algum lugar: ela foi tirada pelo fotógrafo Alfred Eisenstaedt no final da 2ª Guerra Mundial, na Times Square, em Nova York (EUA). Foi intitulada “The Kiss” e virou ícone do romantismo após ser publicada pela Life em uma seleção de fotos que mostrava celebrações pela vitória dos Estados Unidos.

A história por trás da foto, entretanto, não é nada romântica: um marinheiro alcoolizado agarrou a enfermeira Greta Zimer, que estava passando pela rua, e a beijou. Eles não se conheciam e o marinheiro a agarrou sem a sua permissão.

Eu não o vi chegar, mas subitamente estava presa em um abraço forte. O homem era muito forte. Eu não estava beijando ele, ele estava me beijando“, contou Greta.

Essa foto é um dos exemplos de romantização de assédio sexual e esse caso ficou conhecido mundialmente. Se quiser saber mais sobre essa história você pode conferir o livro chamado “The Kissing Sailor Mistery Behind” que investigou o caso.

Cantada x Assédio

Muitas vezes o assédio se confunde com elogios e a cantada, que deveria ser uma forma sutil de comunicar um interesse em outra pessoa, se torna camuflagem para assédio sexual.

Para Juliana Ricci, professora e fundadora do grupo “Indique uma mina”, existe uma diferença “entre a paquera e o assédio, é a palavrinha ‘não’. Quando uma mulher nega ou ignora uma investida, é a hora do homem não tentar mais nada“.

Fonte: delas.ig

Em última instância, é assédio quando você se sente desconfortável com alguma palavra, toque ou atitude. Nesses casos você pode denunciar em um posto de polícia o ocorrido.

Campanhas de empoderamento contra o assédio

Com o avanço das discussões sobre Questão de Gênero e Feminismo na internet, mulheres começaram a se unir para se proteger e para fortalecer o poder do “não” no carnaval.

Fonte: GreenMe

A ideia começou no carnaval de 2017, em Belo Horizonte. As mulheres resolveram escrever em seus corpos para que os homens entendessem que “não é não”.

Uniram informação, empoderamento e tatuagens temporárias como instrumentos contra o assédio. As tatuagens foram impressas através de um financiamento coletivo, no qual estimou-se que 4 mil tatuagens fossem distribuídas durante o carnaval.

Luiza, uma das integrantes do coletivo que organizou a campanha, contou que as tatuagens foram distribuídas apenas para mulheres“Teve caso de amigos que pediram a tatuagem, mas eu tive que explicar que o corpo que ainda precisa dizer ‘não’ é o da mulher. É o meu [corpo]. Mas nós queremos que os homens também entrem na luta contra o assédio se conscientizando, ‘puxando a orelha’ daquele amigo mais folgado, denunciando e nos ajudando quando presenciarem alguma situação assim”, ela contou ao G1.

Outra campanha que ganhou força em 2017 e 2018 é a “AconteceuNoCarnaval”. Durante esse período é divulgado um número de WhatsApp para que as mulheres denunciem casos de assédio e abuso. Essa campanha tem o intuito de dar visibilidade a esse problema e de cobrar dos poderes públicos uma ação mais assertiva para combater o machismo.

A cultura do assédio e o machismo estrutural

A cultura do assédio no carnaval não é um problema isolado, o que está por trás desses dias em que muitos abusos são cometidos é o machismo que está presente na nossa sociedade.

Em 2018 a Veja usou a expressão “bela, recatada e do lar” para se referir a ex-primeira dama. Essa frase, que tratou Marcela Temer como um objeto decorativo, resume bem o pensamento da sociedade ao decidir quais mulheres devem ou não ser respeitadas.

 A mulher “bela, recatada e do lar” deve ser respeitada, enquanto a mulher que vai para o carnaval, fica até tarde fora de casa e usa roupas mais curtas não é digna de tanto respeito e está “pedindo” abuso.

O que é importante reforçar aqui é que esse problema é sentido todos os dias pelas mulheres e que o resultado de tal pensamento é que em 2018 o Brasil registrou 606 casos de violência doméstica e 164 estupros por dia.

Durante o carnaval esses números aumentam: apenas em SP em 2018 registrou-se 288 tentativas de crime. Estima-se que esses números sejam ainda maiores, porque se referem apenas aos casos registrados. Muitas mulheres sentem vergonha, medo ou sentimento de impotência ao sofrer um abuso e, por isso, não registram a violência.

Quero ir ao carnaval para me divertir, o que posso fazer para me proteger então?

  1. Andar em grupos: diante de inúmeros casos de assédio, é recomendado andar em grupos para que as(os) amigas possam ajudar caso algo aconteça. Você pode até combinar um sinal com suas amigas para comunicar a elas que não está se sentindo confortável com alguma situação.
  2. Levar instrumentos sonoros: algumas mulheres levam apitos e outros instrumentos de som para alertar as pessoas ao redor caso estejam precisando de ajuda. Em caso de assédio, é importante sinalizar para as pessoas ao seu redor que algo de errado está acontecendo.
  3. Em caso de assédio, denuncie. Durante o carnaval um número de WhatsApp é disponibilizado para agilizar as denúncias. Além disso, você pode encaminhar-se para um posto de polícia e formalizar a denúncia. A denúncia é importante para que os crimes de assédio sejam visibilizados e encarados como um problema real em nossa sociedade.

Tem mais dicas de como as mulheres podem se proteger no carnaval?

Deixa aqui embaixo nos comentários!

Um abraço, Fran.

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