Até quando nossa menstruação será um tabu?

Até quando nossa menstruação será um tabu?

por Fran Bittencourt
|
12/03/2019
|
,

Imagine viver em um mundo em que você não sabe o que é um absorvente, nunca ouviu falar sobre um. Então, quando você menstrua pela primeira vez lhe oferecem paninhos para você usar, mas dá tanto trabalho trocá-los e você passa por tanto constrangimento que resolve até abandonar a escola. Além disso, o tabu que envolve o assunto é tão grande que você mal conversa sobre isso com outras mulheres. Os homens não entendem muito sobre o que está acontecendo com você e acham que menstruação é algum tipo de doença.

Esse cenário existe, e é vivido por muitas mulheres indianas nesse momento. Uma delas resolveu fazer um documentário, mostrando essa realidade e expondo o quanto não conversar sobre um assunto pode transformá-lo em algo assustador.

Absorvendo o Tabu, documentário premiado no Oscar

Cena do documentário Absorvendo o Tabu, em que foi perguntado às meninas se elas sabiam o que era menstruação. Fonte: Netflix/divulgação

Na noite do Oscar desse ano (dia 24 de fevereiro, de 2019) esse documentário, que se chama Absorvendo o Tabu, da Netflix, ganhou um Oscar de Melhor Documentário de Curta-Metragem. A diretora Rayka Zehtabchi (única mulher a ser indicada na categoria) discursou:

Não acredito que um filme sobre menstruação ganhou o Oscar.

Na internet, a repercussão também foi semelhante, havia muito espanto, muita surpresa e muita comemoração pelo reconhecimento desse trabalho. Mas por que será que causa tanta surpresa um documentário sobre menstruação ganhar esse prêmio considerado tão importante pela indústria cinematográfica?

O curta mostra como mulheres em situações de baixo saneamento básico lidam com o seu período menstrual e também com o estigma social, que envolve o assunto e é presente na sociedade. Nós conversamos mais sobre como as estruturas sociais sustentam o tabu que é falar sobre menstruação aquiÉ esse estigma, esse tabu, que está por trás do sentimento de surpresa que aparece ao ver tal trabalho ganhando um Oscar.

Ainda que o tabu sobre a menstruação permaneça presente em nossa sociedade, suas estruturas estão cada vez mais sendo abaladas e isso acontece por causa de premiações como essa. Mas, principalmente, porque as mulheres têm, cada vez mais, rompido o silêncio e falado abertamente sobre a menstruação.

Criação de um emoji sobre menstruação

Todos os emojis propostos. Fonte: Delas

Em uma tentativa de auxiliar com que o tema menstruação seja tratado com mais naturalidade nas conversas, a ONG britânica Plan International UK, dedicada à defesa dos direitos das crianças e garotas, em parceria com o setor de doação de sangue do sistema de saúde da Inglaterra, criaram um emoji para representar a menstruação. O emoji deverá estar disponível nos celulares ainda esse mês e a figura escolhida é uma gota de sangue. A ONG declarou que a criação e inclusão desse emoji é uma tentativa de ajudar a expressar o que mais de “800 milhões de mulheres ao redor do mundo estão sentindo todos os meses“.

Um emoji não vai resolver isso, mas pode ajudar a mudar a conversa, afirmou Russell. Acabar com a vergonha da mestruação começa quando você fala sobre ela, disse Lucy.”

Para escolher que figura iria representar a menstruação, a ONG abriu uma votação popular com 5 opções. Entre elas: um absorvente feminino, um smiley em forma de gota de sangue e um útero. A imagem campeã foi uma calcinha absorvente(!!!), mas pasmem a escolha foi rejeitada pela Unicode Consortium (grupo de voluntários ligados a grandes empresas de tecnologia responsáveis por padronizar os emojis).

Então, a ONG fez uma parceria com o setor de doação de sangue da Inglaterra e chegaram juntos a decisão de propor a figura de uma gota de sangue e, enfim, o emoji foi aprovado.

Para Lamanda Ballard, ativista norte-americana diretora da organização Flo Code essa escolha foi desapontante:

Eles pensam, ‘oh uma calcinha absorvente com algumas gotas de sangue como emoji é demais’, mas tem um emoji de cocô. Como uma coisa é pior do que a outra? Uma menstruação é algo completamente natural.

Declarou Ballard, que achou a escolha uma hipocrisia, em uma entrevista ao The Guardian.

Causa surpresa perceber que a simples escolha de um emoji para representar a menstruação possa causar tanta discórdia. O que está por trás disso é, justamente, a falta de diálogo sobre o assunto.

Ao mesmo tempo em que identificamos retrocessos na queda desse tabu, percebemos que muitas mulheres estão cada vez mais dispostas e prontas para conversar sobre a menstruação. Esse processo têm sido gradual e é importante lembrar que cada mulher tem o seu próprio tempo e que tá tudo bem se você não quiser conversar sobre isso agora. O simples fato de você estar lendo esse texto já representa um grande avanço para quebrarmos esse tabu juntas.

Calcinhas Menstruais

Fonte: Herself

Eu comecei a pensar e a conversar mais sobre menstruação ao tomar conhecimento das calcinhas menstruais. Antes disso usava absorvente descartável e não me questionava sobre existir opções mais confortáveis de protetores para o período menstrual. Inclusive, falava pouco sobre o assunto. Quando eu conheci as calcinhas menstruais e percebi que podia existir uma opção tão confortável e simples para a menstruação comecei a repensar sobre o porquê de ter demorado tanto tempo para ela ter sido criada.

Foi nesse momento que tomei conhecimento, também, do tabu social que envolve a menstruação e me lembrei de todas as vezes em que já havia sentido vergonha por estar menstruada.

A calcinha menstrual ajuda no processo de naturalizar a menstruação, porque é algo que já usamos no dia-a-dia. Então, não precisamos usar nada diferente durante o período menstrual.

Para a Tassia Meinhardt, as calcinhas menstruais representaram uma “libertação do sofrimento menstrual“:

“As calcinhas menstruais vieram para mim como uma verdadeira libertação do sofrimento menstrual. Não me adapto aos absorventes internos  (não gosto) e os absorventes descartáveis me causam alergias nas virilhas. Quando uma amiga minha me passou o link da herself fui me informar mais sobre o produto. Juro que comprei com um pé atrás pois achava que não iria dar certo, mas agora recomendo para todo mundo!!! Realmente liberta, se não fossem as cólicas nem lembraria que estava menstruada!”

Enquanto para a Eskarlet Cardoso a menstruação deixou de significar um “castigo feminino“:

“Por muito tempo eu detestei ficar menstruada. Ter que ficar cuidando para o absorvente não vazar e trocando de X em X horas me deixava ainda mais irritada e estressada. Com a Herself isso mudou. Não acordo mais no meio da noite apreensiva achando que a cama está manchada e não preciso mais sair correndo no meio de uma reunião por medo de sujar a cadeira. A visão sobre o meu ciclo mudou também. Antes eu acreditava que a menstruação era um “castigo feminino”, mas com essa liberdade que a Herself me deu eu passei a enxergar o meu ciclo como um período que precisa ser vivido com carinho, atenção ao meu corpo e aos sinais que ele manda. E falando sobre liberdade, já posso completar que se me pedissem para descrever o produto maravilhoso de vocês em uma única palavra seria exatamente essa, pois vocês me proporcionaram a LIBERDADE de viver o meu ciclo da melhor forma.”

As calcinhas menstruais, ao naturalizar a menstruação, acabam estimulando conversas sobre o assunto e auxiliando na quebra desse tabu social. Elas também ajudam a perceber que o sangue menstrual é natural e não precisa ser mau cheiroso como quando ele entra em contato com o absorvente descartável. Aos poucos vamos deixando de sentir nojo de algo que é tão nosso e que tem tanto a nos ensinar sobre nosso ciclo interno.

PS: se você ainda sente nojo do seu sangue menstrual ou não se sente a vontade para conversar sobre isso, tá tudo bem. Cada uma de nós tem o seu próprio tempo e não existe certo ou errado, apenas aquilo que você se sente confortável para conversar agora. Se você sente nojo da sua menstruação, dá uma lida nesse texto que a Vic preparou com reflexões sobre o assunto!

Como vimos, o tabu que envolve a menstruação já está tendo suas estruturas abaladas e é graças a pessoas como você, que está lendo esse texto. Obrigada e seguimos juntas.

Um abraço, Fran.

5 (100%) 1 voto
Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados

Quer ver algum tema específico no blog? Conta mais!





Entra com a gente nessa ;)

DIGITE SEU NOME E E-MAIL PARA FICAR POR DENTRO DE TUDO