Cerveja: bebida de mulher

Cerveja: bebida de mulher

Foto: Instituto da Cerveja Brasil

Foi-se o tempo em que ir para o bar tomar uma cerveja era programação de homem. Hoje basta dar uma caminhada pelas ruas e avenidas mais boêmias de Porto Alegre para perceber que, de botecos a pubs, o público feminino tem marcado presença e dominado esses espaços. Seja no reencontro das amigas, happy hour com a galera do trabalho, date do tinder ou mesmo sozinhas: nós estamos lá apreciando essa bebida descoberta há mais de 10 mil anos.

 

Mas algumas de nós vão além de consumidoras finais. Há todo um universo por detrás da cerveja que chega até o nosso copo, e são muitas as mulheres responsáveis pela existência e funcionamento dele. Historicamente, a produção de cerveja começou pelas mãos da mulherada suméria. Enquanto os homens saíam para caçar, a elas eram atribuídas as funções de produzir e comercializar a bebida.

 

Essa relação das mulheres com a cerveja se dava em diversas culturas, não para menos as representações mitológicas da cerveja são de figuras femininas: Ninkasi, a Deusa Suméria da Cerveja e Ceres, Deusa dos cereais – responsável por uma das explicações para o nome que a bebida tem hoje. As transformações histórico-sociais acabaram colocando o homem como protagonista nesse enredo, mas a verdade é que nós nunca deixamos de fazer parte dessa história.

 

O mercado da cerveja, que atualmente é um dos mais crescentes em números de empregos no Brasil, segue sendo um meio majoritariamente masculino. Entretanto, a busca das amantes de cerveja por igualdade e espaço tem mudado esse cenário. Elas são sommelières, cervejeiras, donas de bares, estudiosas e apreciadoras. Dentro das cervejarias, ocupam cargos que vão da administração à produção, e para chegar neles enfrentam ainda o sexismo e o machismo.

Foto: Matinê Cervejeira

Conversamos com Taís Suhre, 25 anos, que é Biotecnologista, juíza do Beer Judge Certification Program (BJCP), sommelière de cervejas e especialista em tecnologia cervejeira pelo Instituto da Cerveja – Brasil (ICB). No mercado cervejeiro ela já trabalhou nas cervejarias Babel e Zapata, e ministra diversos cursos na área de análise sensorial e microbiologia cervejeira. Ela nos contou um pouco mais sobre esse mercado em evidência, sobre os desafios e possibilidades que as mulheres podem encontrar nele:

 

Herself: Como e quando iniciou sua trajetória dentro do universo da cerveja?

Taís Suhre: Em 2012 eu já colecionava alguns rótulos de cerveja. Nessa época, fugi da semana acadêmica da Biotecnologia e me inscrevi na semana acadêmica da Engenharia de Alimentos. Lá eu conheci a primeira sommelière de cervejas da minha vida, a Alinne Bernd. E depois de uma palestra super inspiradora, decidi que era com cerveja que queria trabalhar.

 

Herself: Qual foi o maior desafio que você encontrou no mercado cervejeiro?

Taís Suhre: Por ser um mercado bastante novo no Brasil, são poucas as cervejarias que possuem laboratórios, que seria a área em que me encaixaria melhor. Então para me inserir nesse meio, assumi funções bem diferentes do que eu estava preparada pela minha formação.

 

Herself: Você já sentiu algum tipo de preconceito nos espaços cervejeiros por ser mulher?

Taís Suhre: Sim. Em diversas ocasiões onde eu estava trabalhando, se tinha algum homem por perto, os clientes preferiam ser atendidos e tirar dúvidas com eles. Também já tive o meu conhecimento “testado” pra ver até onde eu sabia do que estava falando.

 

Herself: Quais os passos que você julga serem fundamentais para as interessadas em trabalhar com cerveja adentrarem no meio, seja na produção ou outros setores?

Taís Suhre: Estudo, persistência e paciência são fundamentais (principalmente com as piadinhas machistas). Também encontrar no teu caminho parcerias que te estimulem, como eu encontrei no Ceva das Minas(*), um coletivo de mulheres cervejeiras que participo.

 

Herself: Sobre o coletivo Ceva das Minas, como funciona? Qual é o objetivo dele?

Taís Suhre: O Ceva das Minas surgiu como um evento que a Lais Berbigier Dornelles e a Roberta Cardoso organizavam pra empoderar as meninas que trabalhavam em cervejarias. Depois de um tempo, elas queriam que isso fosse algo maior e hoje engloba meninas das mais variadas áreas, que tem cerveja como trabalho ou como hobby. A ideia do Ceva das Minas é ser um coletivo onde a gente possa trocar conhecimento (realizamos workshops, brassagens**), compartilhar nossas experiências e também beber boas cervejas. Todas as meninas são bem vindas, no Ceva das Minas e no mundo da cerveja!

 

* https://www.facebook.com/cevadasminas/

** Brassagens é como a cervejeira se refere ao processo de produção de cerveja.

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