Da dor à poesia: o fenômeno das instapoetas

Da dor à poesia: o fenômeno das instapoetas

por Jessica Brandelero
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26/06/2018
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Rupi Kaur nasceu na Índia, mas se mudou para o Canadá ainda criança. Hoje, com 25 anos, é artista plástica e autora e ilustradora do livro de poesias “Outros jeitos de usar a boca”. Ryane Leão é uma brasileira de 28 anos, trabalha como professora e é a autora do livro de poesias “Tudo nela brilha e queima”. As duas jovens e seus respectivos livros – que são sucesso de vendas no Brasil – fazem parte da chamada nova literatura feminista.

Imagem: reprodução

As comparações e as semelhanças entre as escritoras e as obras são várias, mas a maior delas parece estar nas temáticas e estilos das poesias: são sobre mulheres, para mulheres, e carregam uma linguagem simples e direta para tratar de assuntos importantes como amor, violência de gênero, dor e superação. Para os adeptos de uma literatura mais “purista”, tanto a linguagem quanto os temas são alvos de críticas – dizem ser simplórios e de lugar-comum.

 

Imagem: reprodução

Mas o grande alcance e os debates gerados pelas poesias superam as desaprovações. Parte disso se dê, talvez, porque tanto Ryane Leão quanto Rupi Kaur tiveram suas trajetórias marcadas pelo uso das redes sociais. Elas fazem parte do fenômeno dos instapoetas, e antes mesmo da publicação dos livros já compartilhavam seus escritos através de páginas no Facebook e Instagram; uma forma eficiente de aproximar as poesias e temas do público leitor.

 

A verdade é que ao ler “Outros jeitos de usar a boca” e “Tudo nela brilha e queima”, é quase impossível não se identificar com os poemas e sentir empatia pelas personagens – seja pela proximidade com nossas experiências pessoais ou por encontrarmos referências em histórias de mulheres que conhecemos. São leituras fáceis, mas isso não quer dizer que sejam leves. Algumas páginas são verdadeiros socos no estômago: falam de abusos, de lesbofobia, do machismo e racismo sistêmicos, dos traumas que relações tóxicas podem gerar em nossas vidas.

 

Imagem: reprodução

 

Ryane Leão, feminista negra e lésbica, consegue passar em suas poesias visibilidade e representatividade para tantas outras mulheres que são silenciadas e oprimidas justamente por questões de raça e orientação sexual. Sua inspiração parece vir dessas mulheres reais, e é fácil identificar o tom autobiográfico no que ela escreve. Já Rupi Kaur compartilha conosco a visão de uma jovem mulher indiana, cercada por uma cultura e religião machistas e repletas de tabus sobre as mulheres e seus papéis sociais. Quando fala de traumas e abusos, ela encoraja outras mulheres a compartilharem e denunciarem situações semelhantes.

 

Em ambos os livros, as poetisas nos narram a realidade nua e crua de mulheres que passam por diferentes tipos de dor e violência, mas elas vão muito mais além: nos mostram o momento do encontro em si mesmas e nas outras, o poder de superação e emancipação que nós mulheres temos coletivamente e individualmente. São livros que falam de relações de amor com outras pessoas, mas que enfatizam o quanto é fundamental cuidarmos da nossa relação com nós mesmas e nutrirmos nosso amor próprio. São leituras que, finalizadas, deixam a sensação de um abraço confortador e o desejo de compartilhar com toda mulher e amiga.

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