Empoderamento: uma palavra, muitos significados

Empoderamento: uma palavra, muitos significados

Uma das funções mais essenciais da comunicação é garantir que os receptores da mensagem compreendam o que está dizendo o emissor. Assim, torna-se importante definir conceitos que são utilizados de formas diferentes. Algumas palavras, no entanto, possuem diferentes significados e, por isso, podem gerar confusões quando utilizadas sem uma descrição mais precisa.

 

A noção de empoderamento, muito utilizada contemporaneamente é um bom exemplo disso. A palavra é utilizada em diferentes contextos, mas ganha destaque na contemporaneidade no uso por movimentos sociais ditos identitários (movimentos de mulheres, movimentos pela equidade racial, e relacionados à diversidade sexual). Contudo é crescente sua utilização em diferentes espaços como debates acadêmicos e o mundo empresarial. Mas, afinal, o que é empoderamento?

 

Como ficará mais evidente no decorrer dessa escrita, responder essa pergunta é uma tarefa bastante árdua. Assim, busco aqui tecer algumas considerações acerca da origem do termo e dos principais significados atribuídos a ele hoje em dia.

 

Empoderamento e Poder

A primeira consideração necessária a fazer sobre o conceito, é a sua intrínseca relação com o conceito de poder. Também polissêmico, o conceito de poder pode ser compreendido a partir de diferentes vieses. Das diversas concepções de poder, duas são particularmente importantes para se compreender o conceito de empoderamento.

 

Na primeira, o poder é analisado pela ótica da dominação e da opressão daqueles que detém o comando político e econômico, entendendo, assim, o poder como algo centralizado e localizado em espaços específicos na sociedade;

 

Na segunda forma, o poder é entendido como algo existente em todas as relações humanas, distribuído de forma desigual, mas com um caráter difuso na sociedade. Assim, mais do que dividir a sociedade entre aqueles que detém o poder aqueles que não o possuem, o que podemos encontrar é o poder circulando socialmente. Como afirma o principal autor dessa concepção:

 

O indivíduo é um efeito do poder e é, ao mesmo tempo, na mesma medida em que é um efeito seu, seu intermediário: o poder transita pelo indivíduo que ele constituiu. (FOUCAULT, 2003, p. 35)

 

Mais do que ter de optar por um dos dois usos de poder, é importante compreender a convivência dessas duas dimensões: o poder compreendido em uma escala macrossocial, ou seja, aquele concentrado nos espaços, nas pessoas e nos grupos sociais legitimadas socialmente como “poderosas” e as vivências do micro-poder, ou seja, esse poder que circula de forma desigual e sutilmente em cada uma das relações sociais existentes. A convivência dessas duas dimensões fundamenta as diferentes concepções do termo empoderamento.

 

Histórico do termo empowerment

Segundo Rute Baquero (2012), a origem do conceito de empowerment remonta à Reforma Protestante, iniciada por Lutero no Séc XVI no continente europeu. Como a escrita (e leitura) operavam como um importante instrumento de poder, a tradução da bíblia para as línguas vernáculas da população europeia e a permissão para a sua livre interpretação garantiu a possibilidade de que o poder até então centralizado nas instituições católicas, circulasse na sociedade.

 

Assim, tanto a tradução da Bíblia quanto a invenção da impressa são fenômenos relacionados ao surgimento do termo empowerment no sentido de garantir a proliferação de vozes até então silenciadas.

 

Apesar dessa origem histórica, a difusão do conceito ocorreu a partir dos movimentos emancipatórios e identitários, principalmente nos Estados Unidos na segunda metade do século XX. Nesse contexto de contracultura ocorrido a partir da década de 1960, o conceito de empowerment passou a ser utilizado como sinônimo de emancipação social.

 

Na década de 1970, o conceito sofreu forte influência dos movimentos de auto-ajuda, acentuando dimensões do desenvolvimento individual relacionados ao termo. Nos anos 1980, a principal influência foi a psicologia comunitária, acentuando características da relação do indivíduo com a comunidade. Assim, na década de 1990 o conceito também se consolida na área da saúde, principalmente nas ciências relacionadas a práticas comunitárias.

 

No Brasil, o conceito de empowerment chega por volta da década de 1980 e logo depois ganha a tradução de empoderamento, considerado um anglicanismo (inclusão de uma palavra da língua inglesa para a língua portuguesa). Hoje o conceito assume múltiplos significados, de acordo com as diferentes áreas de saber que as utilizam.

 

As quatro dimensões de empoderamento

O conceito de Empoderamento é considerado um neologismo e está presente no Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea das Ciências de Lisboa. Sua utilização divide-se, principalmente, em quatro dimensões: individual, organizacional, comunitária e política.

 

A dimensão individual de empoderamento é bastante utilizada no campo da psicologia e refere-se à habilidade das pessoas de gerenciarem as escolhas de sua vida visando o seu próprio bem-estar. As discussões acerca do empoderamento individual são atualmente muito presentes na sociedade norte-americana e são compostas pelas perspectivas psicossociais.

Imagem licenciada por PRETA.

Uma dura crítica que recebe essa perspectiva é a sua filiação à uma concepção individualista de sociedade, que pode dar margem para afirmações meritocráticas, como discursos de cada um é responsável pelo seu auto-empoderamento. Discursos como esses acabam por culpabilizar os sujeitos que por fatores estruturais da sociedade não sentem-se ou não são legitimados como empoderados.

 

Uma segunda dimensão de empoderamento é a utilizada pelas áreas administrativas e diz respeito ao chamado empoderamento organizacional. Em linhas gerais, o empoderamento é utilizado no mundo corporativo como uma metodologia de organização do trabalho. Assim, o foco do empoderamento seria o de delegar o poder de decisão para membros até então silenciados dentro de uma organização.

 

A principal crítica que recebe o uso dessa dimensão do conceito de empoderamento é de que nessa perspectiva o empoderamento é compreendido como um ato realizado da organização para o sujeito, em um processo de “dar poder a alguém”. Dessa forma, compreender-se-ia uma relação de dominação intrínseca, onde é necessário que uma entidade ou organização ceda poder àqueles que se encontram desprovidos desse.

 

O empoderamento comunitário é compreendido como a terceira dimensão de empoderamento e é bastante presente nas discussões relacionada à área da saúde, especialmente nas ênfases de saúde coletiva. Nessa compreensão, empoderamento designa o processo participativo por meio do qual os sujeitos ou grupos de sujeitos desenvolvem ações que visam a melhoria de sua comunidade.

 

Essa dimensão de empoderamento está fortemente relacionada com a tensão existente entre o Estado e a Sociedade Civil, que pode assumir duas perspectivas nesse caso. De um lado, o empoderamento comunitário pode ser entendido como a necessidade de fortalecimento da esfera privada de atuação, tornando desnecessária a atuação no Estado no desenvolvimento de melhorias nas comunidades; e, por outro, o conceito pode significar o envolvimento do Estado na capacitação das populações locais, fortalecendo a relação entre a atuação estatal e o exercício da cidadania dos sujeitos de determinada comunidade.

 

O empoderamento comunitário guarda fortíssima relação com a quarta dimensão de empoderamento, o empoderamento político, que pode também ser entendido como uma sub-modalidade do empoderamento comunitário. Os autores defensores do empoderamento político alertam para o risco de o que empoderamento comunitário pode incorrer na integração dos excluídos à sobrevivência e adaptação à sistemas precários que não contribuem para a emancipação e sim para a perpetuação da dependência de programas calcados no individualismo e no assistencialismo (Gohn, 2004). Nesse sentido, é importante assinalar que o uso do verbo empoderar figura hoje em projetos de diferentes agências internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

 

A quarta dimensão de empoderamento desenvolve-se no Brasil, especialmente pelas ideias de Paulo Freire (1986) que reforça a associação do empoderamento à emancipação, entendendo-a como um processo necessariamente social e coletivo. Segundo o autor, em diálogo com Ira Shor:

 

Mesmo quando você se sente, individualmente, mais livre, se esse sentimento não é um sentimento social, se você não é capaz de usar sua liberdade recente para ajudar os outros a se libertarem através da transformação da sociedade, então você só está exercitando uma atitude individualista no sentido de empowerment ou da liberdade (p. 135)

 

O empoderamento político, assim, é concebido como um processo de libertação proporcionado pelo pensamento crítico e pelas ações de intervenção na sociedade visando a superação das desigualdades sociais. É importante salientar que nesse processo os indivíduos tomam posse de suas próprias vidas pela interação social e é essa interação que proporciona a transformação social.

 

Uma crítica recebida à essa perspectiva é a de que o empoderamento político esteve muito fortemente associado à dimensão de classe, olhando enfaticamente para as divisões macroestruturais da sociedade. Esse olhar pode acabar por homogeneizar grandes grupos sociais, ocultando importantes diferenças existentes nas relações sociais no tocante às questões de raça/etnia, gênero e orientação sexual.

 

Dessa forma, vivemos hoje uma atualização do uso do conceito de empoderamento a partir de sua dimensão política, envolvendo, sobretudo, assuntos relacionados aos movimentos identitários, como o movimento negro, movimento de mulheres e movimento em defesa da diversidade sexual.

 

Empoderamento e feminismo

Em uma simples busca no google pela palavra empoderamento encontramos a maioria das respostas relacionadas à expressão empoderamento feminino. Isso demonstra que a predominância conceitual sobre o tema está na dimensão política, mesmo que fique evidente um deslocamento das questões de classe para as questões identitárias.

 

Assim, o empoderamento é relacionado ao feminismo mantendo-se o sentido de libertação e emancipação social. A defesa do empoderamento feminino assume um duplo caráter: o de uma busca pela auto-empoderamento e construção de ferramentas que garantam que as mulheres possam viver seus desejos com maior liberdade e, concomitantemente, a busca pela construção de uma sociedade que não mais tolha as mulheres de serem sujeitos de sua própria história.

 

Contudo, mesmo dentro do movimento feminista, torna-se importante não cair na armadilha da homogeneização. Marcadores como a orientação sexual e, especialmente, a raça/etnia influenciam fortemente as possibilidades concretas e as trajetórias das diferentes mulheres.

 

Nesse contexto, é importante utilizar o substantivo empoderamento no plural como forma de demarcar que são diferentes e desiguais os empoderamentos necessários a serem vivenciados nas múltiplas biografias. Os movimentos de mulheres negras, por exemplo, têm se destacado no uso do conceito de empoderamento, demarcando as especificidades de se viver a intersecção de gênero e raça.

 

Uma das principais autoras a posicionar-se nesse sentido, bel hooks (que reivindica o uso de seu nome em letras minúsculas) demarca o uso do conceito de empoderamento numa perspectiva antirracista, antielitista e antissexista, pautando tanto mudanças nas esferas institucionais da sociedade, como em pequenos atos da consciência individual expressos no cotidiano.

 

Nesse duplo movimento, é essencial a superação do entendimento do empoderamento como uma atitude apenas individual, não construindo um empoderamento centrado no indivíduo e sim nas lutas sociais mais amplas. Mas é também necessário entender o lugar do sujeito individual que, ao construir pequenas e constantes resistências, auxilia o processo de tensionamento que leva ao avanço do empoderamento coletivo.

 

Nas palavras de Djamila Ribeiro (2017):

O empoderamento não pode ser algo autocentrado, parte de uma visão liberal, ou ser somente a transferência de poder. Vai além. Significa ter consciência dos problemas que nos afligem e criar mecanismos para combatê-los. Quando uma mulher empodera a si, tem condições de empoderar a outras.

 

A língua portuguesa permite uma dupla utilização do verbo empoderar. Quando utilizado como verbo intransitivo (aquele que necessita de complemento), empoderar significa a transferência de poder, uma vez que alguém empodera à alguém. Nesse sentido, alguém precisa ser empoderado por outra pessoa.

 

Já quanto utilizado como verbo intransitivo, empoderar significa esse complexo e necessário processo de tomada de consciência de si, na relação com os demais, proporcionando entender-se como um sujeito político, implicado em dada conjuntura histórica e em uma organização social específica e vivenciando as múltiplas relações de poder existentes em nosso cotidiano e apto para influenciar na sociedade em vive de forma gerar rupturas nas relações desiguais de poder.

 

É preciso lembrar sempre: nem todas as ações políticas são empoderadoras, mas o empoderamento é sempre um ato político.

 

Para saber mais:

ALMEIDA, Kamila S; DIMENSTEIN, Magda; SEVERO, Ana. Empoderamento e atenção psicossocial: notas sobre uma associação de saúde mental. Interface. Botucatu, v.14, n.34,, p. 577-589, 2010.

BAQUERO, Ruth. Empoderamento: Instrumento de Emancipação social? Uma discussão conceitual. Revista Debates. Porto Alegre, v.6, n.1, p.173-187, 2012.

CARVALHO, Sérgio Resende; GASTALDO, Denise. Promoção à saúde e empoderamento: uma reflexão a partir das perspectivas crítico-social pós estruturalistas. Ciência & Saúde Coletiva. n. 13, p. 2029-2040, 2008.  

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Graal, 2003.

FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

GOHN, Maria da Glória. Empoderamento e participação da comunidade em políticas sociais. Saúde e Sociedade. São Paulo, v.13, n.2, p.20-31, 2004.

RIBEIRO, Djamila. O que é empoderamento feminino? Carta Capital, 25/05/2017. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/revista/971/o-que-e-o-empoderamento-feminino

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