“Era só pedir” – A carga mental das mulheres

“Era só pedir” – A carga mental das mulheres

Ontem à noite eu cozinhei aqui em casa, a louça ficou na pia e fomos dormir. Hoje de manhã eu acordei e ela ainda estava lá. Mais perto do almoço ela ainda me encarava. Meu companheiro estava trabalhando na sala quando eu disse que queria mais ajuda pra cuidar da cozinha. Ele estava finalizando o que estava fazendo e eu um pouco irritada. Resolvi lavar e depois fomos no mercado juntos e aproveitamos pra conversar. [corta a cena]

Alguém se identifica com essa cena por aí? Ela acontece em casas no mundo todo: as mulheres se sentem sobrecarregadas com as atividades do lar, acabam não falando nada e quando falam ouvem um “era só pedir”.

Um tempo atrás os quadrinhos da artista francesa Emma foram compartilhados por milhares de pessoas no Facebook: nele ela expõe as raízes desse problema. Originalmente publicado em francês, os quadrinhos foram traduzidos pelo grupo Bandeira Negra e os dados atualizados pela mais recente pesquisa feita pelo IBGE:

Você pode conferir a história completa dos quadrinhos clicando aqui.

Emma chama esse trabalho extra de planejar as tarefas do lar (entre elas: escalar o trabalho que cada pessoa deve fazer) de Carga Mental. É como se as mulheres fossem responsáveis pelo planejamento + execução, enquanto os homens se concentram apenas na parte de executar, quando são chamados para isso.

Um estudo do IBGE realizado entre 2001 e 2012 constatou que as mulheres chegam a dedicar 25 horas semanais aos fazeres do lar, sendo que os homens gastam apenas 9 horas nessas atividades.

O planejamento, entretanto, já é um trabalho por si só. Requer tempo e esforço pensar na lista do supermercado, na alimentação da família, na limpeza da casa, nas necessidades dos filhos, etc. Essa disparidade presente na divisão de tarefas do lar têm origem na desigualdade de gênero: culturalmente as tarefas do lar são atribuídas às mulheres, enquanto os homens saem para trabalhar fora de casa. Porém, já faz tempo que as coisas mudaram e que as mulheres também trabalham fora de casa. Sem uma redistribuição das tarefas do lar, na prática o que acontece é que as mulheres realizam uma dupla jornada de trabalho.

Cada vez mais as mulheres têm percebido e exposto suas necessidades (um exemplo disso é o alcance internacional que os quadrinhos de Emma tiveram). Voltando para a primeira cena que relatei no início desse texto, quando eu e meu companheiro fomos ao supermercado conversamos sobre o assunto das louças. Eu expus como me sentia, e fiz um pedido claro: “preciso de ajuda com tais coisas e inclusive no planejamento delas”.

A CNV (comunicação não-violenta) é um processo de pesquisa contínua desenvolvido por Marshall Bertram Rosenberg e uma equipe internacional de colegas que apoia o estabelecimento de relações de parceria e cooperação, em que predomina comunicação eficaz e com empatia. Eu estou lendo o livro de Marshall (que leva o mesmo nome) e já fiz um seminário sobre o assunto. Aprendi algumas formas de como utilizar a CNV na prática, funciona mais ou menos assim:

1: primeiro você relata o que aconteceu/viu

2: o que você sentiu quando isso aconteceu

3: quais necessidades suas não foram atendidas

4: faz um pedido claro

Então, na conversa com meu companheiro, ao utilizar a CNV, o diálogo poderia ser mais ou menos assim:

1: eu acordei e vi que a louça de ontem ainda estava suja. Perto do almoço, enquanto eu me preparava para cozinhar, vi que a louça permanecia lá.

2: quando eu vi isso me senti triste.

3: é uma necessidade para mim que a gente divida as tarefas do lar.

4: peço que você me ajude a planejar e a executar a nossa alimentação e a limpeza da casa.

A CNV é uma das formas de facilitar uma conversa ou conflito que eu gosto muito, você conhece outras?

Como funciona a divisão de tarefas na sua casa? Vocês conversam sobre isso?

Com carinho, Fran.

@franbitten

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ps: meu companheiro acabou de lavar a louça.

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