Moda e política: precisamos falar sobre dignidade menstrual

Moda e política: precisamos falar sobre dignidade menstrual

É chegada a semana que os debates entre moda e sustentabilidade se intensificam pelas ações do Fashion Revolution – movimento global por moda ética. Ele surgiu em 2013, depois que um complexo fabril em Bangladesh desabou matando mais de mil pessoas. Os trabalhadores operavam em situação precária e os superiores já haviam sido avisados sobre a insalubridade do edifício. O ocorrido foi um marco para que profissionais, professores e entusiastas da moda questionassem o impacto insustentável dessa indústria para propor novos caminhos.

Por aqui, enxergamos nosso papel em nos posicionarmos e apresentarmos nosso movimento rumo à sustentabilidade. Sem conseguir promover oficinas presenciais esse ano, como fazemos anualmente, queremos falar sobre um pauta ainda tímida para a moda sustentável e o bem-estar humano nas redes produtivas: a urgência da menstruação como pauta política e o olhar ecofeminista como caminho. 

Vem conversar com a gente?

A menstruação é política

A menstruação é um processo fisiológico que ocorre em corpos capazes de gerar vida. Falando assim, é até estranho que não seja visto como algo natural, né? 

Mas a verdade que há um grande tabu histórico sobre o tema na sociedade. Esse tabu em relação à menstruação e outros sangramentos vaginais se estende por várias gerações, por todas as classes sociais e pela maioria dos lugares do mundo. 

E, entendemos que todo esse estigma faz parte de um contexto social complexo: a misoginia em relação ao corpo feminino. Por passar pela vagina, o sangue é visto como sujo, impuro, nojento. Essa narrativa causa um imaginário que rodeia nosso inconsciente coletivo, e faz com que o tema seja invisibilizado há décadas.

Sobre essa invisibilidade, um exemplo doloroso: você já se perguntou como mulheres em situação de privação de liberdade lidam com a menstruação? Quais são as reações da sociedade quando assunto vem à tona? E, em tempos de pandemia como vivemos agora: em qual cesta básica você notou um pacote de absorventes? O que não é falado deixa de existir e necessidades básicas – como poder gerenciar a menstruação – são negligenciadas. Nesse sentido, vemos a relevância da dignidade menstrual: acesso a protetores seguros e informação de qualidade para que mulheres possam ter segurança e autonomia sobre si mesmas.

Ecofeminismo

Não há como falar sobre sustentabilidade sem falar sobre pessoas, né? Isso porque, não podemos separar seres humanos do ambiente: nosso bem-estar depende das boas condições de vida na Terra, e o planeta precisa ser visto como um órgão vivo o qual fazemos parte. Não é sobre “preservar” o que está fora, e sim de nos enxergamos parte do que precisa sobreviver, coexistir, viver em harmonia.

Assim, não existe cuidado com o ambiente sem o cuidado com as mulheres. Essas que, pelas opressões e desigualdade de gênero, são duramente afetadas.

Dialogando o feminismo com a ecologia, o ecofeminismo é uma teoria crítica de diversas correntes de pensamento. Um dos debates centrais é o peso em que as mulheres têm na manutenção da vida. Elas têm o papel social de zelar pelos filhos, pela casa (sem remuneração) e conciliam esse trabalho com as atividades remuneradas. Isso faz parte de uma condição social de opressão e violência – que se relaciona com os processos de exploração da natureza. 

Coloque a interseccionalidade nesse diálogo e teremos ainda mais a necessidade de medidas plurais que beneficiem todas as mulheres. E, igualmente, que destruam esse papel social de submissão.

A mídia Modefica, numa série sobre desigualdade de gênero na moda, mostrou dados da ABIT (Associação Brasileira de Indústria Têxtil e Confecção) apresentando que 64% da mão de obra indústria no Brasil é feminina. Esse fato, somado aos inúmeros escândalos de trabalho análogo à escravidão no país, nos mostra as condições precárias que as mulheres enfrentam. 

Os dados também causam outros questionamentos. Como, por exemplo, as necessidades básicas das mulheres de irem ao banheiro, o acesso que elas possuem no trabalho para trocar seus protetores, o estigma que pode rodear o tema. Sem falar nas dores ou incômodos que podem pedir afastamento ou recolhimento. Nossos corpos – que são cíclicos e possuem várias potencialidades em cada momento – são colocados em um ambiente que exige produtividade integral prejudicando nossa saúde e nossa dignidade. 

Portanto, mais do que nunca, fazem-se necessárias medidas educativas em relação ao nosso corpo e uma visão integrada da vida para uma nova economia feminina.

Agir localmente

Nós não temos as respostas, mas tendo um time 100% feminino, estamos sempre juntas fazendo perguntas. A frase sociológica “pensar globalmente, agir localmente” nos dá o afago de que na falta de conseguir mudar o mundo, podemos agir como podemos, ao nosso redor. 

Depois de muito pensar sobre como lidamos com o tabu da menstruação ao longo das nossas vidas, nos perguntamos como as costureiras da região de Guaporé, empresa familiar da nossa rede, enxergavam a menstruação – já que produzem peças para esse fim todos os dias. 

Elas toparam fazer esse momento de troca com a gente, e o que começou com sorrisos tímidos, virou um espaço de diálogo super potente, o qual conseguimos ouvir a palavra “menstruação” ser dita sem eufemismos, além da experiência delas com seus protetores menstruais. A Gemira, por exemplo, contou dos longos anos usando paninhos e da calcinha menstrual como uma grande revolução. 

Esse é um exemplo de como o conhecimento possibilita a superação de mitos relacionados à menstruação e ao funcionamento do corpo de quem menstrua, facilitando a naturalidade para lidar com o assunto.

Afinal, compreender como o próprio corpo funciona é um direito de cada pessoa. Combinado a isso, falar sobre o tema no ambiente de trabalho gera mais confiança, trocas significativas e segurança.

Chamada para ação

Aos interessados em espalhar essa causa com a gente, temos algumas considerações finais. Nos perguntamos: como varejistas, marcas e todos os setores produtivos podem promover dignidade menstrual em suas redes?

Nós também já experienciamos que, quando falamos de mulheres na indústria, o autoconhecimento a partir do corpo e da menstruação podem ser molas propulsoras para um resgate com o próprio feminino. E a autoestima pode ser tecida a partir da costura. <3

Esse diálogo junto às ações ecológicas (produtos, gestão de resíduos, matérias-primas) integradas ao feminismo podem ser um caminho.

Por enquanto, só sabemos que, não vai haver sustentabilidade sem equidade de gênero. E, dessa forma, quando se trata de proporcionar condições dignas e positivas para as mulheres, podemos fazer a nossa parte. 

Para moda e além. 

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