Mulheres com pelos: o que motiva a escolha da não depilação?

Mulheres com pelos: o que motiva a escolha da não depilação?

Mulheres com pelos: você faz parte desse time? Sabemos que é só chegar o verão, quando estamos com o corpo mais à mostra, que surgem as questões sobre depilar ou não depilar as pernas para vestir aquele shortinho. 

O que não pensamos, no entanto, é que entender a função biológica dos pelos nos ajuda a naturalizá-los. Eles são, basicamente, estruturas que protegem a pele, além de terem função sensitiva e de regular a temperatura corporal

Por isso, mulheres adultas têm pelos em diferentes regiões do corpo e cada um desses pelos têm a sua função específica. Vamos entender essas características e como não tratá-los como tabu. Confira!

O que são pelos e para que eles servem?

Os pelos são estruturas presentes no corpo de todo mamífero e no corpo humano não é diferente. Eles funcionam como um anexo para a nossa pele e a sua função é protetora. Variam de acordo com fatores hormonais, área do corpo e cada um tem a sua função específica

Podemos separá-los em dois grupos. O primeiro são os velos — os pelos mais finos e não pigmentados. Já os pelos terminais tem aspecto mais grosso e escuro. Nesse segundo grupo estão os cabelos, que protegem a cabeça dos raios ultravioletas. E não só ele, mas todos os pelos do corpo regulam a temperatura da pele, nos protegendo do frio e do calor. 

A função dos pelos dos cílios, por exemplo, é filtrar e proteger a região ocular. Então é graças a eles que insetos, poeira e sujidades não entram diretamente nos nossos olhos.

Por que as mulheres têm pelos?

Todos os corpos humanos produzem os andrógenos, que são, basicamente, um grupo de hormônios. Eles são responsáveis pelo desenvolvimento reprodutivo e impactam diretamente nosso metabolismo, composição corporal e…pelos! 

Apesar das mulheres, geralmente, apresentarem menos pelos em relação aos homens, isso não é uma regra. Normalmente essa diferença se manifesta no rosto, mas é totalmente normal mulheres terem pelos em diferentes partes do corpo, já que independente do sexo, existem hormônios agindo pra isso. 

A ideia, portanto, de que mulheres não deveriam ter pelos está presente no nosso imaginário muito mais por pressão estética — uma vez que há uma imposição para que mulheres não tenham pelos — do que uma razão biológica, viu? Mulheres adultas têm pelos e tá tudo bem!

Por que as mulheres têm menos pelos?

Mas, de fato, na maioria das vezes as mulheres têm menos pelos em relação aos homens. O motivo? Os hormônios de novo!

É a presença do estrogênio e da progesterona — hormônios predominantes nas mulheres cisgênero — que fazem os pelos serem levemente mais finos e claros, sobretudo no rosto. Os homens, por sua vez, têm predominância de testosterona, o que faz os pelos serem mais grossos, compridos e escuros. A barba é o maior exemplo disso.

No entanto, esses fatores hormonais podem variar e há mulheres com pelos mais grossos na região da sobrancelha, axilas, virilha e pernas, por exemplo. Outras apresentam essa característica por disfunções como hirsutismo, como veremos a seguir. 

Onde as mulheres têm pelos?

Mulheres podem ter pelos em todas as regiões comuns aos homens, com a diferença, como visto acima, de uma menor quantidade. De forma geral, os lugares mais comuns que eles costumam crescer são na vulva, virilha, axilas e pernas

Na região da vulva, os pelos iniciam na puberdade e possuem uma função protetora, evitando que fungos e bactérias desequilibrem o PH vaginal. Além disso, eles também liberam feromônios — hormônios que ativam substâncias químicas de atração sexual. 

Outro lugar bastante comum é a região das axilas, onde o pelo tem a função de evitar o atrito na pele embaixo do braço. O suor e cheiro característico das axilas também tem relação com exalar um odor atrativo sexualmente, por mais inesperado que isso pareça!

Onde é normal ter pelos nas mulheres?

Para além das regiões já citadas, as mulheres também têm pelos ao redor dos seios, por exemplo. Eles geralmente são mais finos e estão ali devido a fatores genéticos. 

Além disso, outra região comum — e que pode causar incômodo — são os pelos nos queixo. Eles são normais e podem aparecer pelo local devido a produção hormonal. Caso você se incomode, pode retirá-los com pinça ou outro método. Mas no caso de pelos excessivos e não habituais, você pode procurar um especialista. De forma geral: os pelos podem crescer em diferentes lugares e não devem ser motivos de preocupação a não ser que estejam em excesso

Hirsutismo: entenda a condição

E por falar em um sinal de alerta, é necessário ficar atenta ao hirsutismo. Essa é uma disfunção hormonal caracterizada pelo excesso de pelos. Ele afeta sobretudo as mulheres e acaba se manifestando em locais mais comuns nos homens. Como ao redor dos seios, no rosto, no abdômen e na barriga. 

Entre as causas, podem estar a Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP), que é distúrbio endocrinológico marcado por cistos no ovário, irregularidade menstrual e possível resistência à insulina. Outros motivos podem ser obesidade, menopausa, uso de medicamentos para endometriose, doenças do metabolismo, entre outros

Vale ressaltar que existem mulheres que não apresentam nenhuma dessas condições e mesmo assim têm hirsutismo, o que pode ser relacionado com uma predisposição genética. Há também mulheres que naturalmente possuem pelos mais grossos, normalmente na área das sobrancelhas, virilha e pernas. Converse sempre com a sua dermatologista a respeito. 🙂

Mulheres com pelos: é melhor deixar ou retirar?

A escolha por retirar os pelinhos é totalmente individual! É fato que muitas mulheres acabam se depilando por acharem que essa é a opção mais higiênica e mais atrativa esteticamente. 

No entanto, com uma boa higiene pessoal, os pelos não causam mal algum! No verão, por exemplo, é o uso de roupas leves e fresquinhas, banhos frequentes e desodorantes naturais que vão garantir conforto e bem-estar. 

Apesar de também não existirem tantas contraindicações no caso de quem se depila, é necessário tomar cuidado com algumas práticas. Como por exemplo usar lâminas novas e bem higienizadas, que evitam pelos encravados e alergias. 

No caso de técnicas de depilação definitiva é recomendado procurar uma ou um dermatologista antes da prática, entendendo bem seus efeitos e evitando manchas na pele.

E, sobretudo na região da virilha, depilar tudo deixa o corpo mais suscetível a ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), ainda mais pra quem faz sexo sem camisinha. Por isso, sempre avalie se precisa tirar tudo mesmo, ok? 

Leia também: O que a sua vagina te diria se ela falasse 

Mulheres com pelos no corpo: qual o peso dessa decisão?

Sem dúvidas, numa sociedade que visa controlar o corpo feminino, assumir outra postura é um ato de coragem.

Para as mulheres que optam em não se depilar, o fator mais desafiador é o julgamento externo, que condena o corpo não depilado como “sujo” ou “desleixado”. 

É nesse sentido que exercitar a autoestima e sempre lembrar dessa autonomia em relação ao próprio corpo que podem fazer você não ceder à pressão de se depilar se esse não é o seu desejo. 

O olhar sobre os pelos ao longo da história

Mas afinal de contas, as mulheres sempre se depilaram? De onde vem essa cobrança? De fato, a depilação existe há séculos, só que se manifestou de diferentes formas de acordo com a época e cultura. Na Antiguidade, há relatos de que Cleópatra já se depilava com cera de abelha, como um sinal de pureza e riqueza

Já durante a Idade Média na Europa era comum que as mulheres deixassem os pelos. Eles, inclusive, eram vistos como um símbolo de feminilidade, com uma carga erótica fortíssima.

Especialistas e historiadores afirmam que foi a partir da Primeira Guerra Mundial que a depilação se tornou eminente como uma imposição da cultura ocidental. Nesse período, as vestimentas femininas passaram a mostrar mais o corpo e a publicidade passou a explorar a depilação como sinônimo de feminilidade. De acordo com esse artigo, foi em 1922, que a revista Harper’s Bazaar anunciou um creme depilatório pela primeira vez em sua revista, com o texto: “A mulher exigente de hoje tem de ter axilas imaculadas se quer estar livre de embaraços”.

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Anúncio da revista Harper’s Bazaar em 1922. Reprodução: Observador/PT

Apesar de alguns movimentos contra culturais terem questionado esse corpo feminino depilado, foi em meados dos anos 2010, com a quarta onda do feminismo, que esses questionamentos tomaram maior proporção. Hoje, cada vez mais pessoas estão assumindo os pelos como políticos, como é o caso do projeto “Mulheres adultas têm pelos“, que faz sucesso no Instagram.

Porque a depilação se tornou tão popular? 

Em meados dos anos 40, os modelos de biquínis ou chamadas “roupas de banho” mostravam cada vez mais as pernas e axilas femininas É nesse contexto que a publicidade passa a ter um papel importante para remoção dos pelos. Marcas como a Gillette, que comunicavam suas lâminas apenas aos homens, passaram a perceber o potencial do público feminino. 

Ao longo dos anos, as propagandas de giletes e cremes depilatórios continuaram representando a depilação como essencial à feminilidade. Palavras como suavidade, limpeza, frescor, beleza e atração sempre estiveram presentes nos anúncios. 

Por esse controle social ao corpo da mulher, até hoje, manter os pelos tem significado distintos para cada gênero. Enquanto homens podem ser vistos como viris e atraentes quando estão peludos, mulheres são vistas como “sujas”. Um sintoma do machismo que enfrentamos todos os dias, não é?

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Propaganda da marca Gillette. Reprodução: Google

No entanto, existem marcas indo na contramão dessa prática histórica. Como a empresa estadunidense de lâminas Billie, que comercializa giletes e foi uma das pioneiras a mostrar pelos em seus comerciais. S-i-m: da mesma maneira que a menstruação foi representada por anos na cor azul, as marcas tradicionais não mostravam pelos em suas propagandas — as mulheres “se depilavam” já estando totalmente lisas e sem pelos. Por sorte, os questionamentos acerca dos padrões de beleza estão mudando isso. 

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Campanha da marca estadunidense Billie. Reprodução: Instagram

Mulheres com pelos precisam ser respeitadas

Em resumo, os pelos não são sinônimo de higiene pessoal e possuem uma função natural para o corpo. Portanto, é um processo natural que precisa ser naturalizado, sem ser visto como algo nojento ou sujo. Nesse sentido, optar pela depilação ou não é uma decisão individual, que envolve unicamente como você se sente e como quer manter o seu próprio corpo. 

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A modelo Mariana usando biquíni Herself. Por aqui, as modelos participam das campanhas da maneira mais confortável pra si.

Entretanto, sabemos que as mulheres que tem se libertado desse padrão podem sofrer muito preconceito, o que impacta diretamente na sua autoestima, vida sexual e social. Acima de tudo, é necessário entender que o corpo feminino foi submetido a um controle social. Por esse motivo, essa ideia de ser “pura, limpa e imaculada” é uma visão carregada de machismo e racismo. 

Por aqui, indicamos que você busque referências positivas de corpo e converse com outras mulheres sobre essas imposições. E lembre-se: mulheres adultas têm pelos e têm todo direito de exporem seus corpos naturais e livres. O que a gente precisa é de mais liberdade

 

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