Nana Queiroz e os presos que menstruam

Nana Queiroz e os presos que menstruam

por Equipe Herself
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27/09/2018
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“A igualdade é desigual quando se esquecem as diferenças”. Essa é uma das sentenças presentes no prefácio do livro “Presos que Menstruam“, da jornalista Nana Queiroz. Por longos quatro anos, ela investigou a vida de carcerárias brasileiras e revelou o resultado que é o fato de elas serem tratadas da mesma forma que os presos homens. O título do livro quer chamar a atenção justamente para isso: presos não menstruam e o descaso e a falta de políticas voltadas para mulheres mostram uma triste realidade.

Além do livro, Nana mantém o site AzMina, que reúne conteúdos sobre feminismo (ou o que chama de feminismo pop), com o objetivo de tornar a informação acessível e inspirar outras mulheres. Ela foi inspiração inclusive para a Herself! A Raíssa, após ler o livro e constatar que até miolo de pão era usado como protetor menstrual, teve a prova final de que a ideia de trazer inovação para este mercado parecia ainda mais necessária.

Nana conversou com a Nayara Anhanha e contou um pouco da sua história a frente destes dois projetos. Vamos conferir?

Como surgiu a ideia de criar um site majoritariamente feminino que é AzMina? O que te motivou?

AzMina é um site de jornalismo investigativo em profundidade feito com muito trabalho e investimento. A ideia veio quando eu descobri a Bitch Magazine, uma resposta feminista a cultura pop e eu pensei “porque não temos isso aqui no Brasil ainda?”. Claro que a revista era impressa e não se encaixava no padrão brasileiro. A partir de pesquisa vimos que não era o que o nosso público queria, cada dia mais as pessoas se informavam virtualmente. Além de ser uma revista menos visual e nós queríamos algo que fosse mais trabalhados visualmente, que trouxesse temas mais locais. A ideia da resposta pop ao feminismo, a como se chega na massa, na mulher normal e assuntos sobre o dia a dia dela e era essa a inspiração. Porém ao longo do tempo o projeto foi se desenvolvendo, cada mulher trouxe a sua cara à revista e agregando elementos que tornou AzMina o que é hoje.

Como foi o processo por parte do público feminino? Houve alguma resistência de algumas mulheres referente ao conteúdo produzido?

A reação é muito positiva, há muitas pessoas que adoram AzMina, no entanto existe sim um grupo de reação negativa que acha que o feminismo não tem que ser pop, não tem que ser palatável, não tem que ser democrático e acessível. Eu acho uma visão condenável, acredito que há pessoas que veem o feminismo como um grupo onde há mais esclarecimento, leitura e acesso a informação que as demais mulheres. Vejo essa maneira de se posicionar elitista e não acredito que transformar a informação acessível seja negar o aprofundamento teórico intelectual; muito pelo contrário, vejo como uma porta de entrada, um primeiro contato e uma forma de instigar que mulheres queiram saber mais. Tenho certeza que muitas mulheres estão se aprofundando no feminismo devido a leitura iniciante que Azmina proporciona.

Como você se sente vendo tudo que construiu sendo significativo na vida de tantas mulheres, afinal, a AzMina ajudou muita vidas ao longo dessa trajetória?

A maior alegria da minha vida é toda vez que alguma leitora nos procura para dizer que dada reportagem mudou a sua vida. O sentimento de uma mulher se sentir acompanhada, se sentir que não é a única a partir de um texto dá significado na vida de qualquer um. Não é todo mundo que tem a sorte de trabalhar com o que te satisfaz e que tenha um impacto no mundo, é uma sensação impagável mesmo.

Para você, Nana, qual a importância da produção de conteúdo de mulheres para mulheres? O que esse processo muda dentro da estrutura social que vivemos?

Mulheres produzirem conteúdo para mulheres é essencial porque estamos carentes de modelos e inspiração. Quando me refiro à inspiração, não são aquelas mulheres bem sucedidas que cresceram na vida, porque nos afasta, a mensagem que passa para essas mulheres é que só chegarei lá se eu for incrível. Os exemplos de modelos são essas mulheres comuns que estão tendo este heroísmo diário de enfrentar as violências as quais estamos submetidas, esses exemplos fazem com que nos sintamos encorajadas, acompanhadas. Toda vez que uma mulher relata como superou uma relação abusiva ou como reagiu a uma situação de violência ajuda e encoraja a outras mulheres tomarem a mesma atitude. Não há nada mais inspirador para uma mulher que a experiência de outra mulher e como ela superou, podendo ter, às vezes, mais efeito que até mesmo uma política pública.

Como surgiu a ideia do tema para o livro “ Presos que menstruam”? Já que é um tema que não é muito explorado no Brasil, gostaríamos de entender a motivação e a resposta das pessoas durante o desenvolvimento (homens nas carcerárias, outras mulheres, outros profissionais)

Os presos que menstruam surgiu de um diálogo com outra mulher que trabalha com instrução de detentas e mulheres prestes a sair que estavam em regime aberto e pensei “gente, eu nunca ouvi falar disso, ninguém nunca ouvir falar disso”. Presos começaram a ser investigados em começo de 2010 então era um assunto inédito e ninguém se falava disso, elas eram completamente invisibilizadas e ao mesmo tempo tinha o Estação Carandiru fazendo um sucesso enorme, as pessoas estavam olhando para o cárcere, porém somente o masculino, o foco era somente os homens. Então comecei a fazer essa pesquisa a duras penas, por conta própria, o contrato com a Record só chegou no final, foram quatro anos de trabalho duro.

Fiquei me correspondendo com presas por 6 meses, às vezes por cartas para conseguir entrar no roll de visita. As secretarias de segurança pública não queriam que eu visse o que estava sendo feito dentro do sistema carcerário e não autorizam quase nenhum jornalista a entrar, você até pode ver que essa é uma dificuldade que os jornalistas têm sempre para fazer reportagens sobre o sistema carcerário. Porém, eu acho que foi muito importante porque desde então publicou-se um outro livro bem feito sobre o tema que é o do Drauzio Varela que saiu no último ano, esse processo gerou habeas corpus generalizado para mulheres gestantes, lactantes e mães. Claro que não foi somente o livro que gerou todo esse progresso, porém sempre é uma força para que as coisas mudem. O livro já está na nona edição e já foi lido por muitas pessoas, agora irá virar um projeto de série que esperamos conseguir patrocínio o quanto antes.

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Comentários

2 respostas para “Nana Queiroz e os presos que menstruam”

  1. Eliane Mota disse:

    Muito Bom

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