O autoconhecimento e a potência de nossos corpos

O autoconhecimento e a potência de nossos corpos

Chama-se menacme o período de atividade menstrual na vida da mulher, que, normalmente, inicia-se na fase da adolescência. Neste período, muitas coisas não fazem o menor sentido, e, por isso, não compreendemos os tantos significados que a primeira menstruação pode ter.

Nosso corpo, desde a infância até a adolescência, se prepara para este momento, quando ocorre o aumento dos quadris, glúteos, seios, o crescimento de pelos, o aparecimento de acnes e etc.

Desde então, muitos medos, raivas, nojos e até culpa crescem dentro da gente, sem entender o porquê. Podemos querer esconder ou expor nossos corpos, ou podemos, apenas, não querer pensar isso. No entanto, independente da nossa escolha, do que não conseguimos escapar é do medo e vergonha de ter nossos corpos objetificados – sem nem, ao menos, precisar compreender o sentido que esta palavra tem, porque seu significado é sentido no corpo.

Desta forma, desenvolvemos, ao longo de nossas vidas, estratégias e automatizamos pensamentos que melhor se adaptam ao nosso contexto.

Tais pensamentos automáticos se relacionam com nossa cognição, nossos afetos e nossos comportamentos, corroborando para um determinado padrão na forma de pensar e agir.

Ocorre que, por muitas vezes, estes padrões podem não ser saudáveis para o nosso desenvolvimento enquanto indivíduos, tornando-se disfuncionais. Um exemplo de como formamos estes padrões é quando somos ensinadas a nos comportar de uma forma socialmente estabelecida como “adequada”, vestindo determinadas roupas, brincando com brinquedos delimitados, sendo estimuladas a cuidar do outro e a objetivar um relacionamento romantizado e pacífico.

Todos esses padrões, que podemos chamar de regras, nos distanciam da possibilidade de questionar. Afinal, aprendemos que regras não devem ser questionadas – e nosso cérebro registra muito bem isso. Porém, ao não questionar estamos fadadas a seguir funcionando dentro de uma lógica na qual não conseguimos identificar nossas reais necessidades, que podem ser ínfimas diante desta restrição de comportamentos e pensamentos pré-estabelecidos.

Na adolescência, entretanto, é o período no qual iniciamos nossa vida sexualmente ativa, fase de fortes questionamentos, que nos formamos enquanto pessoas autônomas, independentes de nossa família, e detentoras de algum tipo de poder.

Esta é a fase que – a partir da minha crença enquanto mulher e psicóloga – deveríamos ser mais fortemente instruídas, informadas, acolhidas acerca de todas as dúvidas que constituímos ao longo do nosso crescimento. Isto, pois, já temos autonomia para experimentar o diferente e testar novas experiências de ser e agir.

Neste sentido, a busca pela identificação com grupos e pessoas que legitimem nossos questionamentos e emoções é de extrema importância para que busquemos evidencias de que não estamos sozinhas.

Atualmente, vivenciamos um momento histórico em que as regras impostas para nós mulheres têm sido fortemente confrontadas. E, por conta do avanço das pautas feministas, podemos aprofundar alguns debates e nos posicionar sem ter tanto medo de ter nossas emoções deslegitimadas (pois, se há algo que não queremos que seja questionado são nossas emoções, que estão diretamente relacionadas aos padrões de pensamentos e comportamentos instituídos pela nossa sociedade patriarcal).

Em decorrência deste novo período, abriu-se um espaço mais amplo que nos permite refletir e exercitar nosso autoconhecimento sobre toda a potência que nossos corpos têm.

Todos os meses, nosso organismo se prepara para receber e abrigar uma nova vida. São tantos os processos orgânicos que desconhecemos. Processos de dor, mas também de muito prazer, para além de toda a bagagem de imposições sociais que carregamos.

Por desconhecermos tais mecanismos, construímos a ideia de que nosso ciclo, em determinada fase, é apenas incômodo, sem nenhum prazer ou significado. Por isso, poucas de nós realmente conhecem seus corpos e sabem quando se está ovulando – isso sem o uso de contraceptivo hormonal –, ou até mesmo quando vai menstruar.

Ignoramos a cada mês todas as transformações hormonais que nos ocorrem, e quando isso acontece, deixamos de lado uma oportunidade de autoconhecimento.

Clique aqui para saber sobre os diferentes hormônios produzidos ao longo do seu ciclo menstrual e entender como aproveitar melhor as fases dele.


Automatizamos o ato de menstruar, ter que comprar absorventes, sofrer com as cólicas. Ignoramos, também, o poder que nos permite regular nosso comportamento sexual, e, portanto, exercer o poder de decidir se queremos ou não gerar uma vida. Por óbvio, isso nem sempre será possível, mas aumenta exponencialmente as chances de escolher sobre a maternidade.

Para que essa perspectiva se torne encantadora, no entanto, é necessário se desacomodar e exercitar nossa capacidade de questionar hábitos e forma de pensar (sem esquecer é claro, que o poder de escolha é o poder de escolher também não questionar). Pois, do contrário, poderemos reproduzir a ideia, perpetuada há séculos, de que a função mais importante do corpo feminino é a reprodutiva, seguida da função de exercer o tal do cuidado com o outro.

Acredito que, pela primeira vez, teremos uma geração de mães e mulheres que poderão transmitir um pouco mais de segurança e empoderamento com relação aos seus corpos. O medo existe, porém o apoio mútuo entre as mulheres fortalece a nova crença/regra de que é preciso questionar e criar novas perspectivas.

Nosso poder está dentro da gente, e ele pode ser exercido todas as vezes que necessitemos questionar a posição passiva em que fomos colocadas; todas as vezes que necessitemos reconhecer nossos próprios limites – que vão desde necessidades individuais até o limite do nosso próprio corpo; quando traçamos outras possibilidades de pensar e agir, e quando desconstruir as regras que nos foram impostas desde tão cedo na nossa existência.

É possível traçar novas rotas de pensamento, em que consideremos, para além de um corpo que foi biologicamente determinado como feminino, nossa trajetória individual e coletiva. Uma trajetória socialmente marcada por muitas lutas pelo direito a decidir sobre o que realmente queremos para nossas vidas e nossos corpos.  Por fim, esta não é uma jornada solitária, pois se andamos juntas, andamos melhor.

Bibliografia:

http://www.scielo.br/pdf/rbp/v30s2/a02v30s2.pdf

http://www.ladoocultodalua.com/2015/03/27/percepcao-da-fertilidade-parte-1-conhecimento-e-poder/

http://www.scielo.br/pdf/rlae/v8n3/12403

http://www.scielo.br/pdf/pp/v19n2/a03v19n2

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