O pensamento intelectual ocidental contra as mulheres

O pensamento intelectual ocidental contra as mulheres

por Julia Monticeli
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30/08/2018
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A ideia da mulher como um ser humano inferior ao homem não tem sua origem na modernidade, esse discurso está presente desde a antiguidade. No quarto milênio antes da Era Cristã a maioria das sociedades agrícolas já haviam desenvolvido desigualdade entre os homens e as mulheres, e estavam inseridos em um sistema tipicamente ocidental conhecido como patriarcado (lembrando da existência de sociedades matriarcais africanas nesse período, porém, devemos por óbvio deixar esse assunto para um outro texto).

As civilizações ocidentais desenvolveram seus aspectos distintos sobre o patriarcado, e mesclaram, em particular, com os seus próprios sistemas de crenças e visões de mundo. Não se trata nesse texto de analisarmos cada sociedade patriarcal em sua singularidade, mas, de reunir trechos publicados por alguns dos maiores pensadores e filósofos ocidentais, em seus discursos intelectualizados e pretensamente científicos, demonstrando suas tentativas de comprovação da inferioridade das mulheres em relação aos homens. É entre os maiores pensadores da cultura ocidental civilizada que encontramos as principais raízes de um sistema misógino.

Com o intuito de cada vez mais aprisionar a mulher em aspectos restringidos a maternidade e a vida doméstica, o sistema patriarcal sucessivamente fez ataques as capacidades físicas e intelectuais femininas.

O reconhecido filósofo Platão (428 a.c – 348 a.c) escreveu em seu livro A República V Livro: “Tens conhecimento de alguma atividade humana em que os homens não sobrepujem as mulheres? ” (PLATÃO, 1997, p. 154). Evidenciando a posição subalterna da mulher e seu destino fadado a inferioridade em relação ao homem.

Já Aristóteles (384 a.c. – 322 a.c.) em seu livro sobre história natural intitulado História Animallum afirmava: “A fêmea é fêmea em virtude de certa falta de qualidade” afirmando a falta de capacidade feminina como algo de sua própria natureza e complementa “Tem menos pudor e menos ambição. É menos digna de confiança, mais encabulada” (ARISTÓTELES in ALAMBERT, 1985, 02).  

Para Pitágoras (571 a.c. – 496 a.c.) a mulher estava associada às trevas em oposição ao homem: “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher” (PITÁGORAS, in BEAUVOIR, 1967, p. 06).  

Na idade média, o filósofo italiano São Tomás de Aquino (1225 – 1274) foi o grande difusor da ideia da mulher como um ser falho e até mesmo acidental, em sua mais famosa obra intitulada Suma Teológicas ele escreveu: “Por natureza a mulher é inferior ao homem em força e dignidade, e por natureza lhe está sujeita, pois no homem o que domina, pela sua própria natureza, é a facilidade de discernir, a inteligência” (AQUINO in ALAMBERT, 1985, 03)

Já na ideologia burguesa o empenho dos intelectuais estava em explicar a subalternização da mulher a partir de comprovações científicas e sua incapacidade mental para lidar com assuntos considerados exclusivamente masculinos. No século XVIII, Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778) já encarava com seriedade a sina da mulher restringida a dedicação da vida matrimonial e à maternidade afirmando em sua obra Emilio ou da educação ser a mulher incompetente para lidar com assunto políticos.

Assim como Rousseau, o alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) considerado um dos mais influentes filósofos da história, em seu livro A filosofia do direito assinala sua posição ao afirmar: “As mulheres são passíveis de educação, mas não são feitas para atividades que demandam uma faculdade universal, tais como as ciências mais avançadas, a filosofia e certas formas da produção artística. As mulheres podem ter ideias felizes, gosto e elegância, mas não podem atingir o ideal”(BLOCH, 1995, P 17).

Por outro lado, considerado o pai do anarquismo, Pierre-Joseph Proudhon (1809 – 1865) filósofo, político e econômico francês e autor do livro De la Justice dans la Révolution et dans l’église também descreveu a mulher como um ser humano inferior ao homem, negando a capacidade política das mulheres e desmerecendo os seus direitos como cidadã.

No século XIX, Schopenhauer (1788- 1860) no capítulo As mulheres e Sobre a Metafísica do Instrumento Sexual se referindo ao livro V de Platão coloca a mulher entre o homem e o animal: “Pois assim como a natureza equipou o leão com garras e dentes, o elefante com presas, o javali com colmilhos, o touro com chifres e a siba com tinta, do mesmo modo equipou a mulher com o poder da dissimulação como seu meio de ataque e defesa, e transformou nesse dom toda a força que conferiu ao homem na forma de força física e poder de raciocínio. A dissimulação, portanto, é inata nela (…). Fazer uso disso a cada oportunidade é tão natural para ela como o é para um animal empregar seu meio de defesa sempre que é atacado (…). Uma mulher inteiramente confiável que não pratica a dissimulação é talvez uma impossibilidade”.

Em Nietzsche em seu livro Assim falou Zaratustra no capítulo Mulherzinhas Velhas e Novas, percebe-se a afirmação da mulher apenas como ser sujeito ao homem: “na mulher tudo é enigma e tudo tem a sua solução: “a gravidez”. E complementa, a utilidade da mulher está na servidão ao homem, quando afirma: “O homem deve ser educado para a guerra, a mulher para à recreação do guerreiro. O resto é loucura” (NIETZCHE apud ALAMBERT, 1985, 04)

A genialidade dos homens citados ao longo desse texto foi definida pela relevância de suas obras. Porém, o reconhecimento não evita que esses mesmos homens mantenham a defesa na crença da superioridade masculina construídas através de uma retórica intelectualizada protegida por uma áurea cientifica pouco ou nada embasada na realidade. Dessa forma, inúmeros são os homens, que através de seus escritos deixavam claro o posicionamento do sistema autoritário e patriarcal do qual defendiam e estavam inseridos. São esses, alguns exemplos, de filósofos e pensadores importantes no desenvolvimento da civilização ocidental. É possível perceber que tais trechos evidenciam a ideia dominante do tempo histórico especifico de cada um.

Dessa forma, resta ao final do texto uma reflexão simples sobre o que está por trás da filosofia, para além de teorias e da ciência, dos teóricos e cientistas, refletiremos sobre uma sociedade forjada na crença da inferioridade da mulher. É sobre o pensamento comum, entre homens e mulheres longe da intelectualidade, que reflete a desigualdade de gênero de sua maneira mais brutal. Refletiremos desse modo, sobre a vida de milhares de mulheres vítimas do sistema patriarcal.

Referências

ALAMBERT, Zuleika. Feminismo: O ponto de vista marxista. São Paulo: Nobel, 1986.

BEAUVOIR. Simone. O Segundo Sexo A experiência Vivida. Difusão Européia de Livros. São Paulo: 1967.

BLOCK,R. Howard.Misoginia Medieval: e a Invenção do Amor. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.

FREVERT, Ute. Women in German History – from bourgeois emancipation to sexual liberation. Oxford: Bloomsbury Academic, 1990.

MORGANTE, Mirela; NADER, Maria. O patriarcado nos estudos feministas: um debate teórico. In: Anais do XVI Encontro Regional de História do Anpuh-Rio: Saberes e práticas científicas, 2014, pp.1-9.

NARVAZ, Martha Giudice; KOLLER, Sílvia Helena. Famílias e Patriarcado: da prescrição normativa à subversão criativa. Revista Psicologia & Sociedade; 18 (1): 49-55; jan/abr, 2006.

PERROT, Michelle. Mulheres Públicas. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

PERROT, Michelle; DUBY, Georges. História das Mulheres no Ocidente: O século XIX Porto: Afrontamento; São Paulo: Ebradil. v.4. 1991.

PERROT, Michelle; DUBY, Georges. História das Mulheres no Ocidente: O século XX Porto: Afrontamento; São Paulo: Ebradil. v.5. 1991.

PERROT, Michelle Figuras e Papéis. In: ARIES, Philippe e DUBY, Georges. História da Vida Privada: da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 1992

PLATÃO. A República. São Paulo: Editora Nova Cultural. 1997

 

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