Saúde sexual para mulheres que transam com mulheres

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Saúde sexual para mulheres que transam com mulheres

Já ouviu falar em invisibilidade social? Trata-se de uma forma de preconceito que se baseia na indiferença. No caso, grupos invisibilizados não são lembrados e considerados em vários aspectos do dia a dia e da vida em sociedade, como se suas particularidades e especificidades não fossem relevantes.

Quando as mulheres lésbicas ativistas reivindicam visibilidade, inclusive dentro da própria militância LGBTI+, é justamente por alguns tipos de recortes que são necessários. Afinal, se relacionar com mulheres é sobreviver tanto à homofobia quanto ao machismo, o que desencadeia em um tipo peculiar de discriminação: a lesbofobia. Por outro lado, o apagamento da orientação sexual e da própria sexualidade pesa muito e impacta fortemente em vários aspectos da vida. Inegavelmente, a saúde e o acesso a cuidados ginecológicos é um deles.

Aqui, como vamos falar de saúde sexual, usaremos o termo “mulheres que transam com mulheres”, incluindo mulheres lésbicas e bissexuais que mantenham relações com outras pessoas com vulva 🙂

Invisibilidade lésbica na ginecologia e na saúde

A diferenciação de áreas médicas para tratar de sexualidade e reprodução entre corpos masculinos e femininos é, de certa forma, recente. De acordo com Ana Rita da Silva Rodrigues, “a vida da mulher era descrita a partir das passagens que sofre em função da preparação, exercício e perda da capacidade reprodutiva, criando uma especialidade médica para tal regulação, a ginecologia.”

A ginecologia médica ocidental, portanto, é uma especialidade que começou a ganhar forma entre os séculos XIX e XX, e que reforça a distinção sexual atrelando as mulheres principalmente à reprodução.

Além dos vários problemas surgidos ao colocar os corpos femininos como algo a ser investigado e patologizado, relacionar automaticamente a saúde feminina à reprodução é inevitavelmente excludente.

A heteronormatividade (a crença social de que a única orientação sexual dentro da normalidade é hétero, o que marginaliza outras orientações) começa na prática de “penetração vaginal” – principalmente por um pênis – como norma, o que exclui todas as formas de relação sexual que vão além do padrão penetrativo.

Assim, faltam métodos de sexo seguro para sexo oral em vulvas, por exemplo, que sejam eficazes, específicos e confortáveis. O fato de métodos de prevenção da ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) necessitarem de “improviso” para serem utilizados – e, mesmo assim, serem desafiadores em termos de proteção completa – já indica que o mercado não dá a devida atenção para essas necessidades. Afinal, tudo é feito pensando em vestir e proteger um pênis.

Além disso, faltam pesquisas sobre saúde sexual lésbica e de mulheres que transam com mulheres. Sem estudos, reforça-se a invisibilidade, e a invisibilidade resulta… na falta de interesse de se financiar e organizar estudos sobre. Logo, as mulheres ficam à mercê deste ciclo sem fim.

Tabu no consultório médico

Um dos fatores que contribuem para a falta de acolhimento é o próprio despreparo da maioria dos profissionais de saúde.

Posto que o ensino é focado na heteronormatividade, falta informação e atenção específica para o sexo lésbico durante a formação destes(as) profissionais.

Dessa forma, muitas mulheres se sentem desconfortáveis em falar que se relacionam com outras mulheres quando estão em um consulta. Ou então, muitas vezes, deixam de ir ao ginecologista quando precisam, por receio da discriminação. Ser tratada como “virgem”, por exemplo, apenas por não ter mantido relações sexuais com homens, faz parte da invisibilidade discriminatória.

Logo, aumenta-se o estigma e temos toda uma população afastada do sistema de saúde – que deve atender a todas e todos, com qualidade e atenção.

É necessário, portanto, que os profissionais da área da saúde sejam capacitados para desenvolver ações e práticas de educação em saúde sexual com ênfase no direito à livre orientação sexual, visando reduzir crenças lesbofóbicas e heteronormativas. Além de, claro, garantir o profissionalismo e a confidencialidade dentro dos consultórios, para que mulheres que transem com outras mulheres – mesmo que esporadicamente – se sintam seguras de comunicar sobre sua sexualidade, tendo a garantia de um bom atendimento.

Sim, sexo entre mulheres também tem risco!

Ao contrário do senso comum, o sexo entre mulheres também tem risco de transmissão de infecções. Principalmente as transmitidas por contato de pele e fluidos, como HPV e herpes. Vaginose bacteriana, tricomoníase e a sífilisepidemia atual – também possuem prevalência considerável.

A saliva, as secreções vaginais, os dedos e até acessórios sexuais podem carregar microorganismos que causam ISTs (infecções sexualmente transmissíveis). A presença de feridinhas na boca e/ou dedos e o fato de uma ou ambas estarem menstruadas também eleva o risco.

Orientação sexual é diferente de práticas sexuais

Antes de mais nada, é muito importante ter em mente que mulheres lésbicas nem sempre só tiveram contato sexual com outras mulheres ao longo de suas vidas. Muitas já tiveram contato sexual com homens, seja involuntário, por violência sexual, ou então voluntário, antes de se identificarem como lésbicas. Também há mulheres que não se identificam socialmente como lésbicas ou bis mas mantêm relações sexuais com mulheres esporadicamente.

Por isso, a análise de risco deve ser individualizada, e tem mais a ver com as práticas sexuais já vivenciadas pela pessoa do que sua orientação sexual em si.

Como se proteger?

• Higienização das mãos antes e depois do sexo, com água e sabão;

• Manter as unhas curtas e limpas, para evitar o acúmulo de bactérias embaixo delas e evitar causar possíveis machucados na(s) parceira(s);

• Utilizar luvas cirúrgicas para a penetração com dedos, usando lubrificante se necessário;

• Cortar e adaptar camisinhas masculinas ou femininas para formar uma barreira para o sexo oral. Existe um tipo de barreira que já vem “pronta”: as dental dams, vendidas em lojas de material odontológico. Assim, é possível cobrir a vulva da parceira que está recebendo sexo oral;

• Utilizar camisinha no uso de acessórios/brinquedos sexuais, sempre trocando o preservativo quando trocar a parceira a ser penetrada.

Cuidados ginecológicos para mulheres que transam com mulheres

Mulheres que transam com mulheres também devem seguir alguns protocolos de rastreamento em saúde. Em virtude de fazerem menos rastreamentos quando fazem parte do público-alvo, justamente por acessarem menos o sistema de saúde, a incidência de algumas enfermidades pode estar elevada nesse público. Precisamos mudar isso, né?

Leia também: Exames de rotina? Quais devo fazer?

O exame preventivo ou papanicolau, que detecta lesões pré-cancerígenas no colo do útero, por exemplo, é necessário inclusive para mulheres lésbicas que nunca tiveram contato sexual com pênis. A saber, há evidências de que mulheres que se relacionam exclusivamente com outras mulheres apresentam taxas de displasia cervical semelhantes às de mulheres heterossexuais**. Como essas lesões são causadas pelo vírus HPV, que passa pelo contato de pele com pele, é importante seguir o protocolo de rastreamento a partir dos 25 anos, especialmente se já tiver ocorrido qualquer tipo de penetração – de dedos ou acessórios, inclusive!

O rastreamento para o câncer de mama também deve ser feito por mulheres lésbicas e bissexuais. Em geral, o rastreamento começa a partir dos 50 anos. É importante acompanhar o documento de Diretrizes para a Detecção Precoce do Câncer de Mama no Brasil.

Sem dúvida, o exame mais importante e simples de ser feito é o de sorologia/teste rápido. Ele detecta HIV, sífilis e hepatites B e C e deve ser feito por todas as pessoas, de rotina. Na verdade, precisamos de uma cultura da sorologia aqui no Brasil. Ele é rápido, de alta sensibilidade, acessível e pouco invasivo. Pode ser feito nos postos de saúde ou CTAs (Centro de Testagem e Acolhimento) e é gratuito! <3


Mobilização para avançar

Conforme vimos, ainda há muito a se exigir em termos de saúde sexual de mulheres que transam com mulheres. Porém, é sempre importante lembrar que o que temos de informação e atenção específica hoje é fruto da mobilização das militâncias.

A Saúde é das Mulheres, no plural, porque “somos múltiplas, somos inteiras e queremos viver com saúde e dignidade”. Ter visibilidade no acesso a um direito fundamental é essencial para ser visível em qualquer outro lugar, certo?

O livreto Atenção Integral à Saúde de Mulheres Lésbicas e Bissexuais deve ser lido e compartilhado por nós. Inclusive, não deixem de baixá-lo – sabemos que a luta é contínua e direitos conquistados infelizmente não são permanentes.

Quer dividir conosco suas experiências? Deixe seu comentário aqui embaixo! E claro, mande esse texto para as suas amigas que precisam dessas informações <3 Vamos cuidando umas das outras, né?

Abraço!

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Comment (1)

  • Monica

    Já senti meu colo do útero baixo e alto. Realmente varia com o ciclo.

    2 de setembro de 2019 at 15:15

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