Exames de rotina? Quais devo fazer?

Exames de rotina? Quais devo fazer?

por Victoria Castro
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23/10/2018
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Preciso fazer o papanicolau? E pra quê serve a transvaginal?

Papanicolau, transvaginal, colposcopia, captura híbrida, ultrassom de mamas… São muitos exames, né? Muitos nomes diferentes tidos, às vezes, como rotina nos consultórios médicos, especialmente ginecológicos. Mas será que sabemos a função de cada um desses exames? Será que eles sempre são necessários?

Por que fazemos exames

Existem dois principais motivos pelos quais, durante o acesso ao sistema de saúde ou uma consulta com um(a) profissional, nos pedem para realizar exames:

1) quando temos uma queixa ou sintomas que precisem de investigação médica, a partir da análise do nosso quadro clínico e das hipóteses de diagnóstico, sendo o exame útil para confirmar ou descartar a determinada hipótese; ou

2) quando não temos queixas ou sintomas, mas determinados exames são solicitados para procurar possíveis doenças ainda assintomáticas e/ou em fase inicial. Entram aqui os exames de rastreio, muitos tidos como exames de rotina ou checkup.

A utilidade desses exames, sejam de investigação ou de rastreio, depende de vários fatores que caracterizam cada paciente e também do grupo em que ela(e) está inserida(o). Não há por que solicitar um preventivo de colo de útero para homens cisgêneros, visto que sequer possuem colo de útero, ou solicitar uma mamografia de rastreio para crianças, dado o fato que câncer de mama em crianças é extremamente raro.

Seria muito custo e muito risco para encontrar uma agulha em um palheiro.

Exames de rastreio

Os exames de rastreio, por terem foco na prevenção coletiva da população, são solicitados a partir de protocolos de rastreio – submetidos constantemente a pesquisas científicas para provar sua eficácia -, que indicam a idade, sexo, história familiar, etc em que um exame de rastreio se mostra comprovadamente eficaz para prevenir o aparecimento ou o desenvolvimento de uma doença ou diminuir a mortalidade provocada por ela.

 

 

Tudo isso é um jogo de custo e benefício – como tudo na vida. A intenção é de os benefícios do exame superarem seus custos e riscos. Assim, um bom protocolo de rastreio precisa:

  • rastrear uma doença comum, conhecida e geralmente sem sintomas na fase inicial, com evidências científicas de benefício no tratamento precoce (em comparação ao tratamento após o momento habitual de diagnóstico);
  • se referir a um exame disponível, de fácil acesso, confiável e com um custo financeiro razoável.

Quando um exame tido como “de rotina” ou de “prevenção” não possui um protocolo de rastreio, é porque não é favorável em algum desses fatores, comprovadamente não trazendo benefícios. Ou pior: tendo evidências de que traz mais malefícios do que benefícios.

Exames de rotina desnecessários trazem risco

Gentem, mas exame nunca é demais, certo?

Errado.

Temos a ideia equivocada de que fazer exames é igual a “se cuidar”, usando muitas vezes a noção do “melhor prevenir do que remediar” como justificativa para realizar exames que, na verdade, não previnem nada. Esse discurso não é apenas senso comum, como também é corroborado pelos meios de comunicação e até por alguns profissionais que não se baseiam em evidências. E, comparado a estudos controlados, a opinião de autores e especialistas é o tipo de evidência com menor valor*.

Acontece que, além de demandarem recursos, exames oferecem riscos, especialmente quando não possuem uma indicação de necessidade real:

Risco inerente ao exame

Alguns exames de imagem que utilizam radiação, por exemplo, podem aumentar o risco de câncer; exames de sangue podem provocar infecções na pele; exames que necessitam de uso de contraste podem causar reações (alérgicas ou não)…

Risco de sobrediagnóstico (overdiagnosis)

Muitas vezes, você tem uma condição que está lá, mas nunca chegaria a causar sintomas ou morte. Talvez até sumiria sozinha. Mas como ela foi detectada por um exame de laboratorial ou de imagem, você precisa de submeter a novos exames (com outros riscos). Assim, corre o risco de vir a se submeter a tratamentos desnecessários, sem qualquer benefício em termos de saúde, se tornando um paciente sem nenhuma necessidade.

Risco de sofrer efeitos psicológicos

Ao saber de alguma alteração em um exame solicitado sem real necessidade, você tende a ficar ansiosa, estressada e preocupada até fazer novos exames que descartem aquela possibilidade. Ou seja: cria-se um sofrimento e prejudica-se a saúde mental de alguém por algo que provavelmente não signifique nada.

Risco de falsos positivos

Nos protocolos de rastreamento, preza-se pela sensibilidade e especificidade dos exames para reduzir ao máximo o número de falsos positivos, justamente porque esses impactam fortemente o risco de sobrediagnóstico e o psicológico da(o) paciente.

Quanto maior o número de exames solicitados, maior a chance de se obter falsas alterações – inclusive pelos próprios valores de referência de alguns exames. A sensibilidade dos exames de rastreamento é importante para reduzir o número de falsos negativos também, visto que estes podem gerar uma falsa impressão de “proteção” nas pessoas.

Vamos pensar: são milhares de tipos de exames possíveis de serem realizados. Todos eles demandam tempo e dinheiro. Mesmo que os nossos recursos fossem infinitos, se fôssemos procurar todos os tipos de doenças possíveis e raras que poderiam ser detectadas por exames, passaríamos todas as horas de todos os dias da nossa vida nos submetendo a exames. Impraticável, certo?

E, ainda por cima, elevaríamos muito o nosso risco de receber falsos positivos e sobrediagnósticos. Por consequência disso, tratamentos desnecessários também, que por sua vez possuem riscos e efeitos colaterais.

É por isso que é necessário que os benefícios superem todos esses riscos, e que sejam comprovadamente reais.

 

Mas eu conheço uma história…

Infelizmente, conhecemos muitas histórias de pessoas que descobriram uma doença já em estágio avançado e vieram a falecer. Às vezes, são de pessoas muito próximas a nós, o que nos gera tristeza e até inconformidade, porque pensamos “e se ela tivesse descoberto a doença antes?”; “o que custava ter feito exame X?”…

Infelizmente (de novo), se busca na área da saúde a maior efetividade e a maior redução de danos possível. Talvez, descobrindo a doença antes, a pessoa conseguiria ter um tempo de vida maior, se submeter a um melhor tratamento. Mas, também talvez, não adiantasse de nada, e a pessoa ainda sofreria com intervenções dolorosas e invasivas.

É triste, é horrível e infelizmente pode acontecer com qualquer uma de nós e com qualquer pessoa que amamos. Na vida, não há nenhum risco ou possibilidade que podemos nos proteger completamente.

O fato é que tem muito mais chance de você encontrar algo que não provocaria dano à saúde ou que sumiria sozinho em um exame desnecessário, e daí se submeter a procedimentos arriscados e dolorosos, do que dar o acaso de descobrir uma doença grave e de rápida evolução exatamente no comecinho.

Afinal, você pode fazer o exame hoje, e algo começar a surgir daqui 2 semanas.


Quais exames devo fazer, então?

No que se refere à saúde feminina, se você tem alguma queixa ou sintoma – dores pélvicas, nódulo diferente no seio, um sangramento incomum, corrimento não saudável (diferente de muco cervical e secreção natural) -, fale com sua médica ou seu médico, sem esperar.

Se tem alguma condição a ser acompanhada, ou histórico familiar ou hábitos de vida que lhe coloquem em um risco aumentado, mesma coisa. Cada acompanhamento é individual.

Se você não tem queixas e sintomas: siga os protocolos de rastreio indicados para a sua faixa etária e modo de vida (os documentos da Atenção Básica do SUS estarão linkados no final do post, mas você pode se informar no posto de saúde mais próximo também ♥).

Rastreamento para câncer de colo do útero

O exame mais famoso de rastreamento para mulheres é o de câncer de colo do útero, conhecido como preventivo, exame citopatológico ou papanicolau.

Ele consiste na raspagem, com um cotonete, das células do nosso colo do útero, permitindo identificar as lesões (não a presença do vírus!) causadas pelo vírus HPV, transmitido sexualmente e altamente comum na população, que posteriormente evoluiriam para um câncer de colo do útero.

Ou seja: o nome faz todo o sentido, já que ele previne o desenvolvimento da lesão para um câncer, visto que o tratamento no ínicio é simples e a progressão da lesão também costuma ser lenta.

De acordo com os protocolos da OMS e das diretrizes brasileiras, o exame deve ser oferecido a mulheres com vida sexual ativa, prioritariamente na faixa de idade de 25 a 59 anos – visto que, antes dos 25, predominam as lesões de baixo grau, em que maior parte regredirá sozinha, e a partir dos 60, diminui progressivamente a chance de desenvolver o câncer de colo do útero, visto que ele evolui lentamente.

Alguns consultórios, especialmente particulares, solicitam o preventivo anualmente, mesmo para mulheres sem lesões, mas a orientação é de realizar o exame a cada 3 anos, após 2 exames normais consecutivos feitos em um intervalo de 1 ano. Ou seja, faz o exame em um ano, depois outro no ano seguinte, e se o resultado der normal, volta a repeti-lo após 3 anos.

Para mulheres imunodeprimidas e/ou com HIV, recomenda-se realizar o exame anualmente. Para mulheres que possuem lesões identificadas, a rotina de acompanhamento deve ser estabelecida individualmente.

É importante ressaltar que o papanicolau não é exame para diagnóstico de infecções sexualmente transmissíveis. Ele também não deve ser utilizado para investigar a causa de corrimentos. Aliás, para fazer o exame, o ideal é estar “tudo ok”, justamente para capturar apenas as células do colo do útero! Se você estiver com sintomas de que algo não está legal, peça um exame de secreção, por exemplo.


Rastreamento do câncer de mama

O rastreamento de câncer de mama bianual por meio da mamografia é recomendado para mulheres entre 50 e 74 anos. Fazer o rastreamento antes dos 50 anos, dado o contexto e histórico familiar da paciente, é uma decisão individualizada, que deve pesar os benefícios e malefícios da decisão – visto que a mamografia oferece riscos e há mais mulheres tratadas desnecessariamente do que mortes evitadas de fato. O Exame Clínico das Mamas tem como população-alvo mulheres a partir dos 40 anos, de acordo com o INCA.

Outros exames comuns em consultórios ginecológicos

Para mulheres sem queixas, sintomas e exames de rastreio alterados, ultrassom de mamas, ultrassom transvaginal e colposcopia não são exames de rotina. Os benefícios não superam os riscos nesses casos. Nem pra “dar uma olhadinha” ou “pra ver se tá tudo bem”. É provável que se descubram condições inexistentes ou que se submeta a paciente a cirurgias e procedimentos invasivos à toa.

A captura híbrida para HPV também é controversa, visto que a presença do vírus é bastante comum na população sexualmente ativa e isso não quer dizer que ele causará lesões ou problemas, por exemplo.

 

Ademais, o teste rápido (ou sorologia, oferecido em postos de saúde gratuitamente) é um exame essencial para se fazer de rotina, anual ou semestralmente e/ou pelo menos 30 dias após situação de risco. No caso: sexo sem camisinha, transfusão, compartilhamento de seringas ou objetos cortantes. Ele é rápido, de alta sensibilidade, acessível e pouco invasivo. Reage para HIV (vírus que pode causar AIDS se não for identificado e não for feito o tratamento com antiretrovirais), sífilis e hepatites B e C.

*De acordo com o sistema da USPSTF para graduação da qualidade das evidências (quadro 4.1, página 35 do Caderno de Atenção Primária – Rastreamento, disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/caderno_atencao_primaria_29_rastreamento.pdf).

Protocolos da Atenção Básica – Saúde das mulheres: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolos_atencao_basica_saude_mulheres.pdf

 

Leia também: Contracepção não hormonal: como prevenir a gravidez sem anticoncepcional

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