Mulher: ser humano pleno ou apêndice de alguém?

Mulher: ser humano pleno ou apêndice de alguém?

por Alícia Nelsis
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19/06/2018
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“Os homens… a única coisa em que estavam interessados era em bebês homens para dar continuidade a seu nome. Mas por acaso uma mulher não precisava trazer ao mundo a mulher-bebê que mais tarde geraria os filhos? “Deus, quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?” orava ela em desespero.” 

As alegrias da Maternidade, Buchi Emecheta

 

No livro de Emecheta, é contada a história de Nnu Edo, uma jovem nigeriana que encontra em seu destino exigências bastante severas acerca do papel da mulher em uma sociedade patriarcal. Essa personagem, ao longo de suas muitas experiências, depara-se com expectativas que acabam por limitá-la às obrigações do matrimônio e da maternidade, sendo-lhe imposta uma trajetória de sacrifício permanente, trabalho incessante e reconhecimento sempre pautado a partir de uma realidade masculina de organização social. A valorização da vida, desde seu início relativizada ao sexo masculino do bebê, as oportunidades destinadas aos filhos e não às filhas e, como fio condutor, uma existência sem individualidade ou livre arbítrio da personagem principal são alguns dos elementos que compõem uma rede de inquietações e questionamentos de Nnu Edo.

 

A vida de Nnu Edo é mais uma exposição da realidade que se perpetua, de forma ou de outra, até os dias atuais, fruto de um modelo estrutural que nos organiza enquanto sociedade. É preciso, portanto, que pensemos como se deu a construção da identidade da mulher ao longo da história. Diversas autoras que escrevem sobre o tema pontuam que a dominação masculina sobre as mulheres é um processo longo, permeado de resistências, contrapondo-se à ideia de que desde as primeiras organizações humanas esse era o modelo vivido. Todavia, tentemos dar início a essa reflexão considerando que a mulher, desde o surgimento do patriarcado, é entendida a partir de uma perspectiva secundarizada, sendo a figura do homem tida como a essencial. Nesse sentido, temos a definição feminina construída apenas em relação à figura masculina.

 

Para que tornemos mais concreto esse conceito, podemos voltar a um dos mais conhecidos mitos da criação, o de Adão e Eva. Nesse conto, a mulher não teria sido criada por Deus de forma autônoma, ou ainda por um fim em si mesmo, mas, ao contrário, seu nascimento tornou-se possível em um segundo momento, utilizando para tal a costela do homem. A mulher nasce, nessa história, tendo a figura masculina como condição necessária à sua própria existência, à medida que precisa de uma parte do corpo do companheiro para a sua criação. Já o homem é a obra primeira de Deus, restando à mulher ocupar o espaço de mais um presente ofertado. Ainda, vale lembrar aqui que o mito original continha Lilith, mulher feita do mesmo barro de Adão. Há algumas versões sobre o que houve com Lilith, sendo uma delas a de que teria escolhido sair do paraíso para não se submeter ao parceiro, e só então Eva teria sido criada. De toda forma, a parte que remonta a LIlith foi retirada do Antigo Testamento e hoje é praticamente desconhecida.

 

Portanto, desde as narrativas que remontam à criação da humanidade a existência feminina se constrói a partir da oposição a um sujeito principal, o masculino. Conforme Simone de Beauvoir bem conduz em sua obra “O Segundo Sexo”, a mulher é identificada com “o Outro”, restando quase uma alegoria do que falta no homem. Isso significa que, de forma estrutural, não ocupamos espaço protagonista na narrativa social. Foi-nos reservado o direito – ou o dever – de adorarmos os heróis construídos pelos homens, de ouvirmos as fábulas contadas pelos homens, de sonharmos os seus sonhos.

 

Assim, marionetes da narrativa masculina, por hora as mulheres são descritas como seres sensíveis e pura emoção, enquanto os homens são detentores da racionalidade e, portanto, são quem tem capacidade de estar à frente dos espaços de poder e decisão. Porém, esse discurso facilmente se transforma a partir do momento em que o homem se vê deparado com qualquer dita tentação. Então, até as ações mais violentas e passionais para obter o que se quer são justificáveis, recorrendo-se a argumentos biológicos e menções hormonais. Afinal, os homens são pura razão ou puro descontrole emocional? A resposta parece ser: depende ao que lhes interessa.

 

E já que a definição do masculino é o fio condutor da história e se desdobra da forma que melhor lhes convir, resta-nos, então, num plano mais abstrato, a pergunta: afinal, o que é ser mulher? A partir de onde nos definimos? Definem-nos os ovários ou uma predisposição física? Definem-nos os trejeitos de nós esperados? Definem-nos uma expectativa social de comportamento? E mais importante: quem nos define? A partir de qual ótica somos moldadas e formuladas?

 

A nossa dificuldade parte, sobretudo, do já introduzido: raras vezes foi-nos dado o direito de pensar e de definir a nossa própria natureza de forma autônoma. Quantas de nós já foram questionadas na sua argumentação justamente pela natureza que carregamos? Pensamos ou agimos de tal forma por sermos mulheres; é o que muitos dizem. No trabalho, certas funções nos são atribuídas pelo nosso “jeito feminino”. Na escola e na faculdade, da mesma forma, tarefas nos são dadas com base nesse conceito incerto de feminilidade, que transita conforme melhor se adequar ao discurso masculino.

 

Se remontarmos aos filósofos antigos, identificamos desde lá a ânsia em definir o gênero feminino tido como secundário à essência do ser humano. Se tomarmos como exemplo Aristóteles, percebemos definições da mulher como gênero primitivo, inferior ao homem, mais predileta às “fraquezas da carne”, como a inveja, a lamúria e à luxúria. Já se percebe aí que se reserva à mulher o espaço privado, o do lar, enquanto as portas do mundo público são abertas apenas aos homens. Por certo, é preciso ter um olhar honesto para compreender as teses à luz de seu tempo. É claro que na Grécia Antiga as concepções acerca do debate dos gêneros não comportavam sentido remotamente semelhante ao que temos hoje. Todavia, serve como exemplificador de como na maior parte da produção intelectual que temos como relevante hoje que as mulheres foram encaradas como indivíduos de segunda ordem. O homem sempre é pensável sem a mulher, entretanto o contrário nem sempre foi verdadeiro.

 

Hoje a realidade já é diversa e os embates teóricos são outros. Já há um certo desconforto em sustentar publicamente que o dever da mulher é o silêncio, ou que somos seres desprovidos de faculdades racionais. E isso, de fato, temos que abraçar como um avanço histórico. Que mulheres e homens, desde o patriarcado, nunca exploraram o mundo com igualdade de condições é um fato hoje menos controverso. Como exemplos persistentes da desigualdade, podemos citar ainda o fato de pertencermos a uma realidade em que os homens possuem os maiores salários, chegam mais facilmente aos cargos de decisão, e na política são majoritários. Reivindica-se a todo momento uma história narrada por eles próprios, de forma que são sujeitos legítimos a ocupar o seu protagonismo. É instigada uma cultura que investe na competição entre as mulheres e fomenta a cumplicidade entre os homens. E dentro desse mundo limitado, apenas o estereótipo de mulher submissa é útil – a mulher passiva, que ouve, compreende e acata a opinião do seu – quase – criador.

 

Não é de se espantar que, ainda hoje, a ideia de igualdade entre os gêneros, traduzida pela palavra “feminismo”, seja encarada com tanta resistência e deturpação. Nós, mulheres, somos sobreviventes do mito da supremacia do homem; somos personagens invisíveis de uma história que não nos foi dado o direito de contar, de um sistema de leis e normas que sempre nos considerou seres menos capazes e deficitários. Mesmo assim, a todo momento, há uma investigação profunda e apurada, identifica-se a resistência: a presença da vontade contra a dominação, esse ímpeto de rejeitar uma fraqueza que não nos pertence, uma incompletude que não faz parte da nossa natureza, essa certeza de que o estado de profunda desigualdade entre homens e mulheres não deve se perpetuar.

 

Ainda hoje é preciso enfrentar o dualismo colocado pela sociedade: por um lado as mulheres já são tidas como iguais em direitos adquiridos, por outro, as mesmas seguem descritas como essencialmente diferentes dos homens e, portanto, incapazes de almejar os mesmos objetivos. Dessa forma, o discurso público segue se moldando conforme é conveniente. E esse discurso que ouvimos desde criança tem papel central para formar nossas consciências. Portanto, é preciso que paremos e pensemos: como isso afetou a minha vida? Quais oportunidades me foram negadas e quais lugares me foram reservados apenas pelo fato de eu ter nascido mulher? Para que possamos começar a responder essas perguntas, é necessário que nos entendamos enquanto seres autônomos em relação à figura masculina; é necessário que busquemos uma independência que se liberta da definição a partir de um outro.

 

Trabalhadoras urbanas, camponesas, estudantes, ainda que vivam realidades distintas, também partilham de experiências comuns naquilo que as unem: um conceito de feminino – construído não por nós – e a tarefa imposta de agradar uma concepção masculina de mundo para vencer na vida de mulher. Se não somos definidas meramente pelas nossas vestimentas, por nossos órgãos sexuais, ou ainda por nossas posturas estereotipadas, é necessário que nos coloquemos como voz ativa em um mundo que nos destina a passividade e a servidão. A divisão do trabalho tendo como critério o sexo segue sendo determinante na sociedade: o trabalho doméstico, efetuado na sua esmagadora maioria pelas mulheres, continua não sendo reconhecido como trabalho.

 

Após a inserção das mulheres no mundo formal dos postos de trabalho, o que se deu foi apenas o acúmulo de tarefas, configurando as duplas ou triplas jornadas. Passou-se a dar conta tanto do trabalho externo quanto do trabalho interno do lar. Esse debate evidencia-se ainda mais quando nos debruçamos sobre a realidade das mulheres negras, a quem foi infinitamente mais negado um papel protagonista da história quando comparadas às mulheres brancas. Ao falarmos da história brasileira, colonial e escravocrata, enquanto as brancas lutavam para poder trabalhar fora de casa, as mulheres negras já pertenciam desde sempre a um conceito de mundo do trabalho e enfrentavam em grau muito mais agressivo todo tipo de opressão do mundo narrado pelos homens, o que integra hoje um senso comum racista e machista de nação.

 

São muitos os nossos desafios para romper com as amarras que nos atrelam a um conceito referencial masculino e nos reafirmarmos, sobretudo, enquanto seres dignos de êxito, seres completos do ponto de vista racional. Não nos resguardemos à modéstia e não nos limitemos aos lugares que nos julgam merecedoras. Confiemos nós umas nas outras. É preciso reconhecer, a partir do estudo da História, que tivemos muitos caminhos e muitas possibilidades sufocadas por um discurso que nos construiu a partir de um oposto de um conceito primeiro, o do homem. Fomos, durante muito tempo, e continuamos sendo, em certa medida, espécie de parte complementar dessa figura. Só seremos de fato livres quando rompermos por completo com essa concepção e pertencermos a uma sociedade que nos respeite enquanto indivíduos inteiros e completos, não criados a partir da costela de outrem, mas com uma essência própria.

 

Segundo Beauvoir (1949), “A mulher não se define nem por seus hormônios nem por misteriosos instintos e sim pela maneira por que reassume, através das consciências alheias, o seu corpo e a sua relação com o mundo”. Portanto, ainda que o fator econômico continue sendo um pilar estruturante para a emancipação feminina, ele, desvinculado de outros elementos, resta insuficiente. É preciso, conjuntamente, uma evolução social e cultural acerca da significação do ser mulher para que ocupemos lugar, como bem disse Nnu Ego, de “um ser humano pleno, não o apêndice de alguém”.

 


PARA SABER MAIS:

• O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir
• Mulheres, raça e classe – ngela Davis
• Mulher, Estado e revolução – Wendy Goldman
• A Face Oculta de Eva: As mulheres no mundo árabe – Nawal El Saadawi
• O que é ser mulher? O que é ser homem? – Nalú Faria e Miriam Nobre
http://www.enfoc.org.br/system/arquivos/documentos/13/f1119o-que-e-ser-mulher-e-homem—nalu-faria-e-miriam-nobre.pdf

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