O tabu da menstruação e a evolução dos protetores menstruais

O tabu da menstruação e a evolução dos protetores menstruais

por Fran Bittencourt
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19/09/2018
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Conforme eu fui crescendo, em alguns momentos comecei a ouvir histórias sobre menstruação. Vi minha mãe e outras mulheres presentes na minha vida carregando absorventes descartáveis em suas bolsas e indo com eles até o banheiro. Na escola, as meninas mais velhas também tinham absorventes e algumas piadas já começavam a surgir sobre o assunto. Os meninos riam e as meninas ficavam constrangidas e iam até o banheiro com seus absorventes escondidos na manga da jaqueta ou, ainda, bem escondidos dentro de suas mochilas. Eu percebia que era um assunto que a gente não falava em voz alta. Cochichávamos pelos cantos, e nunca com meninos. Era claramente um assunto de mulheres.

Não me lembro exatamente de quantas conversas tive com a minha mãe sobre o assunto, me sentia constrangida de falar sobre isso e aprendia rápido as orientações que ela me dava para que não precisássemos conversar sobre isso de novo. Me lembro, entretanto, que com meu pai nunca tive conversas sobre isso. Não morávamos na mesma casa e não me lembro de já termos tocado no assunto juntos.

Fonte: Pinterest

Quando menstruei pela primeira vez recebi de uma amiga um absorvente descartável, aquela imagem já me era familiar. Me sentia incomodada com o tamanho que ele tinha e também com o odor que gerava. Pensava que aquele cheiro era característico da minha menstruação, e apenas recentemente com o uso de novos protetores menstruais descobri que aquele cheiro era resultado da interação da minha menstruação com o algodão, que não recebia tratamento antimicrobiano e por isso que o cheiro ficava tão forte.

Durante minha adolescência nunca me questionei sobre o quanto o absorvente descartável resolvia de fato minhas necessidades durante o período menstrual. Eu não via inovações nos protetores, parecia realmente que aquela era a única e a melhor opção. Conforme continuei crescendo comecei a perceber melhor o desconforto que sentia nos dias de menstruação e assim conheci o absorvente interno. Com ele me senti um pouco mais confortável, porque não sentia mais o cheiro tão forte que o absorvente descartável gerava. Mas usar o absorvente interno durante todo o período menstrual acabava sendo um pouco dolorido e percebi que também não resolvia meu problema totalmente.

Nos últimos anos me aproximei dos debates sobre a quantidade de lixo que geramos todos os dias e percebi que os absorventes ampliavam ainda mais esse problema.

Se tínhamos inovação tecnológica em tantas áreas diferentes, por que essa inovação não aparecia também nos nossos protetores menstruais?

Comecei a cursar História, me aproximei dos estudos de gênero e comecei a compreender a diferença que a sociedade patriarcal dava para necessidades masculinas X femininas. Compreendi que os protetores menstruais antigos tinham sido criados por homens, que não sentiam esse desconforto no seu dia-a-dia. Além disso, falar sobre menstruação é um assunto tabu. Não conversamos sobre isso abertamente em casa, com nossas famílias, que representam um ambiente privado. Então acabamos por não conversar enquanto sociedade também, sendo esse um ambiente público, que replica os mesmos costumes do privado.

Todo esse tabu social em torno da menstruação impediu que mulheres falassem abertamente sobre o assunto e que mostrassem seus desconfortos com as opções existentes. Nos últimos anos, as mulheres começaram a empreender mais. Percebemos que somos criativas e exigimos nosso lugar no mundo do empreendedorismo. Com isso surgiram as primeiras inovações nos protetores: os copinhos coletores e as calcinhas menstruais. Opções que geram drasticamente menos descarte de lixo e que nasceram de um processo de pesquisa, no qual as mulheres foram ouvidas e suas necessidades foram levadas em consideração no processo de criação. Hoje temos mais opções, que se adequam a diferentes momentos do período menstrual, e ainda a diferentes necessidades. Temos a opção de escolher qual protetor menstrual queremos usar e isso já é um grande avanço histórico e social.

Fonte: Pinterest

Em 1946 a Disney criou um curta de 10 minutos para explicar às meninas de onde vinha e como ocorria a menstruação. Com informações fisiológicas e também com quebra de tabus que desmistificam ideas como: não tomar banho durante a menstruação ou, ainda, não praticar exercícios durante esse período.

Para começarmos a quebrar um tabu social é importante conversarmos em casa com as crianças, tanto com meninos quanto com meninas. Nesse processo é fundamental que pais e mães participem, mostrando que menstruar é um processo natural e que é a menstruação que futuramente poderá gerar uma vida.

A arte também atua ativamente no processo de quebra de tabu. A artista chinesa Manhei Chan criou pinturas em aquarela que simulam menstruação em absorventes descartáveis:

Fonte: Instagram

A delicadeza de Manhei Chan nos lembra que a arte nos conecta com nossa essência e nos mostra que a menstruação pode ser vista como algo bonito e natural, basta escolhermos de que forma queremos vê-la.

Um abraço, Fran.

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