Higiene menstrual: o que significa esse termo? Saiba mais sobre o assunto

Higiene menstrual: o que significa esse termo? Saiba mais sobre o assunto

Higiene menstrual ou, como preferimos falar por aqui, saúde menstrual, tem a ver com o manejo da menstruação de forma segura e digna. Se isso parece algo corriqueiro para você, não se engane: muitas pessoas não têm essa opção. Essa condição precária faz parte da pobreza menstrual — que precisa ser combatida com políticas públicas. Por isso, junto da Herself Educacional, vamos falar sobre a importância desse tema. Vem com a gente?

Leia também: Pobreza menstrual: o que você pode fazer para combatê-la

O que é higiene menstrual?

Bom, antes de mais nada, uma explicação: o termo “higiene menstrual” é reconhecido por alguns órgãos de saúde para se referir ao manejo da menstruação e popularizou-se nos últimos anos. No entanto, a partir da construção em comunidade das bases, da ética e das ferramentas para pensar educação e dignidade menstrual, percebemos que não se pode deixar de lado o peso da linguagem que usamos para falar sobre menstruação. 

Falar em “higiene menstrual” pode soar de forma pejorativa: não pela simples palavra, mas por todo o imaginário reforçado há anos que coloca a menstruação no lugar do sujo e do nojo.

Saúde menstrual” foi o termo que mais nos alcançou ao pensarmos qual seria uma forma mais atenta e positiva para pensar os cuidados que a menstruação nos pede: entendendo que quando falamos em saúde explicitamos um espaço para atender não somente a aspectos físicos, mas emocionais e sociais de quem menstrua. No entanto, usaremos o termo “higiene menstrual” algumas vezes neste texto, no objetivo de alcançar mais pessoas que buscarão esse conceito. Porém, reforçamos nosso posicionamento em relação à “saúde menstrual”, ok? Agora vamos ao texto!

Higiene menstrual”, “saúde menstrual” ou “manejo da higiene menstrual” significa menstruar de forma digna. Para garantir essa dignidade, é necessário ter acesso a protetores menstruais, sejam eles absorventes internos ou externos, descartáveis ou reutilizáveis, coletores menstruais ou calcinhas menstruais, limpos para conter o sangue. Além disso, é tão importante quanto, poder trocá-los com segurança e frequência ao longo do dia. Também é necessário ter acesso a banheiros (seja em casa ou nos espaços públicos) com saneamento básico. Fora outros itens como água, sabão, papel higiênico e tudo o que garante saúde, privacidade e bem-estar.

Dia Mundial da Higiene Menstrual

28 de maio é o Dia Mundial da Higiene Menstrual. A data ganhou força na Europa devido ao movimento Menstrual Hygiene Day (Dia da Higiene Menstrual), órgão internacional que criou eventos para chamar atenção ao tabu social da menstruação.

O dia 28 foi escolhido por ser uma média simbólica da duração dos ciclos menstruais. E o mês 5 (maio) por ser também uma média da duração do período menstrual.

Embora o movimento tenha ganhado força na Europa, sempre existiu, em paralelo, organizações da América Latina pautando o combate à pobreza menstrual nessa mesma data. 

Desde 1987, dia 28 de maio marca o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher. A data é uma conquista da Rede para a Saúde da Mulher Latino-Americana e Caribenha. Com a ampliação de movimentos focados em educação e dignidade menstrual, a data se expandiu também para celebrar e visibilizar a menstruação como um sinal de saúde.

Por aqui, aliás, também usamos os nomes “Dia Internacional da Dignidade Menstrual” e “Dia Internacional da Menstruação”. Afinal, entendemos que as necessidades do Sul Global se diferem do contexto europeu e, nesse sentido, nos organizamos em prol de diferentes objetivos.

Higiene menstrual e pobreza menstrual: entenda a relação

Se você já relacionou a condição de pobreza menstrual à dificuldade de realizar a gestão da menstruação, acertou em cheio! Como já falamos aqui, a pobreza menstrual diz respeito a uma vulnerabilidade física, emocional, econômica e social. Em condições de pobreza, ter acesso a banheiros, a saneamento básico e a protetores seguros para conter o sangue menstrual é um problema. Nesse sentido, os protetores menstruais tornam-se itens de luxo.

Segundo a ONG Livre Para Menstruar, “500 milhões de jovens e adultos não dispõem de instalações para cuidar de sua higiene menstrual. No Brasil, as mulheres que estão entre os 5% mais pobres precisam trabalhar até 4 anos só para custear os absorventes que usarão ao longo da vida.”

É por conta disso que muitas mulheres precisam improvisar na hora de conter o sangue menstrual. Elas adotam métodos inseguros como folhas de jornal, folhas de árvore, telhas ou mesmo miolo de pão. Isso tem como consequência danos graves à saúde física e mental.

O que diz a ONU sobre higiene menstrual e pobreza menstrual?

A Organização das Nações Unidas (ONU) reconhece a importância dos direitos das mulheres e da gestão menstrual adequada desde 2014. Esse foi um marco para a visibilidade da promoção da dignidade e de ações em combate à pobreza menstrual.

Depois disso, o órgão já apresentava dados sobre precariedade menstrual ao redor do mundo. Conforme a ONU Mulheres, 12,5% da população feminina do planeta não tem acesso a protetores menstruais em razão dos altos custos.

Em 2021, finalmente, o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) analisaram o contexto brasileiro. Assim, lançaram o relatório “Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdade e violações de direitos”. Como conclusão, explicitou-se que a pobreza menstrual é um obstáculo para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.

Quais os impactos da higiene menstrual na saúde?

O manejo da saúde menstrual adequada proporciona dignidade às pessoas que menstruam. Quando esses direitos são garantidos, as pessoas têm as suas integridades físicas e emocionais protegidas. Assim, é possível menstruar com mais saúde, autoestima e bem-estar.

Por outro lado, a falta de condições para a saúde menstrual pode gerar efeitos gravíssimos à saúde. Quando pessoas que menstruam usam papéis ou jornais para conter o sangue, podem causar alergias e irritação à pele,além de infecções como candidíase, vaginose bacteriana, entre outras complicações. Quando falamos de saúde mental, a vulnerabilidade social causa constrangimento, angústia e isolamento. Em alguns casos, pode levar a transtornos como ansiedade e depressão.

Produtos de higiene menstrual

O mais conhecido entre os protetores menstruais, sem dúvidas, é o absorvente descartável externo, que fez parte da vida de muitas meninas e mulheres ao longo de seus ciclos. Hoje, se discute opções mais sustentáveis como os absorventes de tecido — sendo laváveis e reutilizáveis. Com uma proposta parecida, entretanto tecnológica, também existe a calcinha menstrual, uma peça reutilizável feita para a menstruação.

Além disso, existem as opções internas, como é o caso dos absorventes descartáveis (também chamado OB). Como opção sustentável, há os coletores menstruais, que podem ser reutilizados e, por isso, duram mais tempo.

No entanto, esses diferentes protetores dependem da preferência, rotina, fluxo menstrual, e, sobretudo, condições sociais. Numa sociedade desigual, as pessoas que menstruam nem sempre podem escolher. Por exemplo: uma pessoa sem acesso a saneamento básico não tem condições de utilizar um protetor reutilizável. Por isso, é essencial a escuta quanto aos contextos, necessidades, faixas etárias e ambiente na hora de se promover – seja em políticas públicas, seja em ações pontuais,  o acesso gratuito a itens que contenham seu fluxo menstrual com segurança

Aqui na Herself, almejamos um futuro em que todas as pessoas que menstruam tenham opções de protetores. Não só isso: independente da classe social, acreditamos na autonomia de escolher a melhor opção para si.

Direito a higiene menstrual no Brasil e no mundo

Em 2015, por exemplo, a Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PENSE) do IBGE relatou que cerca de 213 mil meninas não têm banheiro em condição de uso na escola. Destas, 65% são negras. Ou seja, esses números explicitam a falta de infraestrutura do ensino público no Brasil. Ainda, que a pobreza menstrual se sobrepõe às questões de raça e classe.

Em pesquisa mais recente (2021), realizada pela UNFPA, em parceria com o UNICEF, constatou-se que das 60 milhões de pessoas que menstruam no país, 5% não possuem acesso a simples materiais de higiene e absorventes. O relatório também concluiu o impacto do racismo nesse problema. Já que as chances de meninas negras não conseguirem ir ao banheiro são três vezes maiores do que entre as meninas brancas.

Quando falamos sobre o problema da pobreza menstrual ao redor do mundo, também existem dados alarmantes. No contexto da Índia, por exemplo, além das questões socioeconômicas, ainda há uma carga cultural de tabu da menstruação. Não à toa, uma pesquisa mostrou que 10% da população feminina, que vive em área rural, acredita que a menstruação é uma doença. Além disso, há uma evasão escolar muito grande. Conforme indica esse artigo, estima-se que 20% das meninas indianas deixam os estudos depois da primeira menstruação

3 ações que promovem a higiene e dignidade menstrual

Ok, sabemos que combater a pobreza menstrual não é uma tarefa fácil. Assim, observar tantos dados negativos pode ser desanimador e angustiante. No entanto, acreditamos nos poderes públicos, empresas, escolas, pais e responsáveis nessa luta. Por aqui, junto da Herself Educacional, lutamos para mudar essa realidade diariamente. Como? A partir da educação menstrual emancipatória e de leis em prol da dignidade menstrual.

roda de conversa sobre higiene menstrual com mulheres do Instituto Penal gaúcho
Roda de educação menstrual com mulheres do Instituto Penal gaúcho. Reprodução: Herself Educacional

Confira, então, algumas notícias boas:

  • Em 2020, criamos um movimento nacional chamado Cadê o Absorvente? com outros coletivos feministas em redor do Brasil. Juntas, propomos uma petição pública em prol da dignidade menstrual que já contém quase 50 mil assinaturas!
  • Neste ano, entrou em vigor a Lei de Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. Depois de muitas idas e vindas — incluindo o veto do presidente Bolsonaro — a bancada feminina no congresso pressionou o poder público para derrubar a decisão. Viva!
  • Por aqui, temos um trabalho de dignidade menstrual nos Institutos Penais. Não por acaso, estamos entre os oito melhores projetos brasileiros de trabalho prisional. Você já conhece? Confira aqui.

Seguimos movimentando, diariamente, as nossas forças para dar visibilidade à causa! Lutamos para que nenhuma pessoa que menstrua viva em situação de pobreza menstrual.

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